Sexta, Novembro 17, 2017
redacao@fatopaulista.com.br / fatopaulista@hotmail.com Telefone: (11) 2849-1454 ::: Ano IX - Edição n º 256
Terça, 18 Março 2014 09:39

Água Mole em Pedra Dura...- edição 209

Escrito por 
Avalie este item
(4 votos)

Tanto bate até que fura! Esse dito popular expressa que, aos pouquinhos, a água vai sulcando a pedra dura e acaba por moldá-la, transformá-la, oferecendo-lhe novas curvas e formas diferentes. Usa-se esse dito para dizer que conseguimos convencer um teimoso a mudar uma opinião. Mas é preciso insistência. É uma metáfora e podemos usá-la para indicar que, com insistência, podemos transformar as coisas, começando por nós mesmos e, também, pela educação das nossas crianças, preparando-as para o respeito ao meio ambiente e, é claro, às outras pessoas.

 

Mas o fato é que estamos educando nossas crianças para o consumismo, para o individualismo e, portanto, para o egoísmo, que são antagônicos em essência ao respeito ao meio ambiente e aos outros. Como tudo tem suas consequências na vida, vivemos hoje, já nos primeiros dois meses de 2014, um fenômeno incrível de falta de chuvas aqui em São Paulo, onde a situação está caótica. A água está escassa e não tem mais força para bater e transformar a pedra dura que tem sido nossa forma de vida predadora!

Temos ciência. Sabemos que o equilíbrio do regime de chuvas depende de fatores como a qualidade e quantidade das matas e florestas (inclusive a Amazônica, que está lá longe, mas interfere sobre o clima do planeta inteiro!!), mas continuamos desmatando; sabemos que a recarga dos aquíferos em condições para o consumo humano depende de que os rios estejam limpos, e continuamos poluindo. E sabem por que sabemos de tudo isso e não fazemos nada? Porque a nossa educação de mercado faz com que a gente esqueça de que tudo o que consumimos vem da natureza. Se tenho sede, tomo um refrigerante: 36 litros de água são necessários para fazer um único litro de refrigerante. Esse tipo de educação para o consumismo faz com que achemos que, por pagarmos a água, ela é nossa. Não é não! A água não é um bem adquirível a bel prazer, mesmo que peguemos por ele. A água é um bem comum de uso público. Não tem preço que pague o que ela vale para a vida humana. Podemos usar, mas não deveríamos desperdiçar, muito menos poluir. E continuamos desperdiçando e poluindo, como se sua capacidade de recuperação fosse infindável.

Além disso, mais da metade da população do mundo já vive nas cidades e, nos países pobres ou “em desenvolvimento”, como gostam de dizer governantes e economistas, as megacidades concentram milhões de pessoas, demandam uma quantidade enorme de recursos naturais (principalmente água), geram milhões de toneladas de lixo e esgotos, crescem sem planejamento, ocupando áreas de mananciais, impermeabilizando o solo, removendo a vegetação, poluindo os rios. Não só, abrigam também injustiças sociais incríveis, com milhares e milhares de pessoas em favelas ou nas ruas, sem acesso nem à água, nem ao saneamento, nem à moradia adequados. Sem surpresas: tudo isso interfere sobre as condições ambientais e, é lógico, sobre a vida das pessoas, sobretudo das mais pobres; sobretudo das crianças mais pobres, sujeitas a doenças endêmicas e dos jovens mais pobres que, sem oportunidades, estão muito mais sujeitos à violência e à criminalidade... Eles morrem mais cedo.

Caros leitores, o futuro já chegou! O cenário desolado de filmes de ficção, nos quais nosso planeta é representado árido e violento, onde as pessoas se matam por alguma água ou comida, e sofrem

num inferno como o de “Sonhos”, de Akira Kurosawa já existe nessas megacidades mundo afora. Resta saber se vamos continuar educando nossas crianças para um mercado que, na verdade, exclui a grande maioria delas, e tende a levar toda a sociedade ao colapso, ou se vamos tentar transformar esse estado de coisas. Para mudá-lo é preciso nos reeducar. Sem a consciência de nosso papel nesse relacionamento com a natureza e com os outros, como podemos educar os mais jovens? Nas palavras do Prof. Dermeval Corrêa de Andrade: “As pessoas se esquecem que o que chamamos de cultura é, na verdade, o produto do relacionamento entre os seres humanos e o ambiente. Assim, o fundamental é que, se não for devidamente educado, o ser humano se transforma num predador do meio ambiente e de si mesmo, pois não interage com a natureza com o respeito que ela merece.”(1)

É certo (e já estamos vendo isso em nosso dia a dia) que, sem uma educação que questione e transforme este estado de coisas, estaremos fadados à decadência de nossa civilização, cada vez mais discriminatória e injusta, num meio ambiente hostil e degradado. A todos nós, a responsabilidade.

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora em Meio Ambiente e Membro da Equipe Pedagógica do Instituto Argumentos – Ciência e Cultura.

Ler 961 vezes Última modificação em Segunda, 24 Março 2014 14:27
Zulmara Salvador

Zulmara Salvador é Socióloga, Antropóloga e Consultora em Meio Ambiente.

2 comentários

  • Link do comentário Maria Inês Sexta, 11 Abril 2014 13:30 postado por Maria Inês

    Querida este ditado acima citado, se cabe bem em uma pessoa esta é você, que não desiste nunca, esta sempre trabalhando e buscando esta consciência ambiental.
    Gd bjk!! Inês

    Relatar
  • Link do comentário Mauro Domesi Quinta, 10 Abril 2014 20:53 postado por Mauro Domesi

    Querida amiga Zulmara,
    Sua zelosa persistência bate sempre até "furar", isto é transformar positivamente a realidade. Estamos preparando com a equipe paroquial de catequese e a assessoria da Ir. Ondina Gonzatto material catequético junto com as crianças e os pais visando inclusive o meio ambiente. Parabéns pelo seu empenho. Abraços: Mauro.

    Relatar

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.