Terça, Agosto 21, 2018
redacao@fatopaulista.com.br / fatopaulista@hotmail.com Telefone: (11) 2849-1454 ::: Ano IX - Edição n º 265
Erro
  • JUser: :_load: Não foi possível carregar usuário com ID: 823
Terça, 10 Novembro 2015 13:39

Um café mais simples

Escrito por 
Avalie este item
(2 votos)

Este artigo será breve e terá o objetivo de apresentar ao leitor o aspecto mais revelador da causa do rompimento das duas barragens em Minas Gerais: é que algumas pessoas merecem “um café mais simples” que outras. Vejamos.

Estamos vivendo mais uma “tragédia à brasileira”, que soterrou um distrito inteiro, desabrigou centenas de pessoas, matou outras tantas, quantas ainda não sabemos quase uma semana depois (escrevo em 08 de novembro); uma tragédia que causou um desastre humano e ambiental ainda sem condições de avaliação, pois o assoreamento dos rios que a lama contaminada já está atingindo, além de serem mananciais de abastecimento humano, permeiam áreas importantes de proteção ambiental. Toda essa lama chegará ao mar carregando não se sabe quanta biodiversidade local com ela. Uma coisa horrível mesmo!

Justificam os representantes da empresa que todos os controles estavam em dia, que todos os planos de contingência eram acompanhados pelos órgãos de fiscalização, que os sistemas de alerta e de segurança cumpriam os requisitos legais e, saibam os caros leitores, os tais “planos” deveriam estar cumprindo a legislação mesmo: no papel!!

No Brasil, para cumprir insanas legislações, as empresas gastam fortunas contratando especialistas para elaborarem planos e mais planos a serem protocolados junto aos órgãos de todas as esferas: municipais, estaduais e federais, quase um crime ambiental o tamanho da papelada! Mas, protocolada a papelada, a maioria das empresas não se dedica seriamente a executar práticas reais de boa gestão, de cuidados básicos com o meio ambiente, com seus colaboradores e, muito menos, com as comunidades vizinhas. E não há quem possa me processar por estar escrevendo isso. Porque é verdade!

O que se passa no Brasil, em pelo Século XXI, é que continuamos funcionando como no período colonial: exploração excessiva e descontrolada do meio ambiente em benefício de poucos e desprezo absoluto aos cidadãos e ao próprio meio ambiente, é claro!

No caso da tragédia de Mariana é óbvio que não havia nenhum plano de emergência devidamente interiorizado pelo pessoal da empresa. Quero dizer que ninguém sabia o que fazer frente ao evento do rompimento das barragens! Isso é o fato. Mas a mídia veiculou que a empresa “telefonou para as pessoas” quando as barragens se romperam. Eu não vou nem comentar isso, tamanho o ridículo. Além disso, como parte deste “plano de contingência” a empresa contratou, mais de um dia depois, hotéis da região para abrigar algumas das famílias atingidas. Mas mandou separá-las dos hóspedes dos hotéis e oferecer a elas, depois de tanto desespero e pânico, “um café mais simples”. Aí está caro leitor, o segredo da tragédia de Mariana: enquanto como sociedade, admitirmos que algumas pessoas merecem “um café mais simples” que outras e tratarmos com naturalidade que pessoas percam a vida, percam casa e bens, enquanto outras pessoas tomam o café no “andar de cima”, estaremos fadados a MUITAS tragédias. A maior: continuarmos a ser um País subdesenvolvido em pleno Século XXI.

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora em Meio Ambiente e Membro da Equipe Pedagógica do Instituto Argumentos – Ciência e Cultura.

 

Ler 2700 vezes