A educação brasileira e o movimento negro perdem uma de suas vozes mais potentes. A professora emérita Zélia Amador de Deus, figura central na luta contra o racismo na Amazônia, faleceu nesta terça-feira (8), em Belém (PA), aos 74 anos. Pesquisadora das ciências sociais e ativista histórica, ela deixou um legado marcado pela resistência e pela transformação das estruturas acadêmicas em prol da inclusão.
Trajetória de superação e pioneirismo acadêmico
Nascida em 1951, na Ilha do Marajó, Zélia construiu uma trajetória de superação que começou em uma fazenda de gado em Soure. Filha de uma jovem de 15 anos e neta de trabalhadores rurais, ela migrou para a periferia de Belém, onde enfrentou o racismo estrutural desde a infância. Foi na educação pública que encontrou as ferramentas para transformar sua realidade, carregando sempre o conselho de sua avó: a importância de não baixar a cabeça e de ocupar os espaços com dignidade.
Sua atuação na Universidade Federal do Pará (UFPA) foi revolucionária. Além de ter sido vice-reitora entre 1993 e 1997, Zélia foi peça-chave na implementação de políticas de cotas raciais e na criação de processos seletivos especiais para quilombolas. Em 2019, recebeu o título de professora emérita, um reconhecimento à sua dedicação incansável em tornar a universidade um ambiente mais plural e comprometido com a igualdade racial.
Legado na luta antirracista e ancestralidade
Como uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), Zélia Amador de Deus foi uma das principais articuladoras dos direitos das comunidades quilombolas. Sua visão ia além das salas de aula, conectando o saber acadêmico às raízes ancestrais. Em agosto deste ano, durante uma homenagem na UFPA, a professora plantou um baobá, árvore que simboliza a memória e a resistência dos povos africanos.
“Esse baobá representa muito para mim, porque fala de ancestralidade, de memória e daqueles que vieram antes de nós”, declarou na ocasião. O reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, ressaltou que, embora fosse uma entidade no movimento social, Zélia nunca perdeu a sensibilidade no trato humano, sendo lembrada por colegas e alunos como uma mestra do cuidado e da amizade.
Repercussão e impacto na sociedade
A notícia do falecimento gerou uma onda de homenagens de acadêmicos, ativistas e personalidades da cultura. A historiadora Janira Sodré, fundadora do Instituto Pretas, destacou a capacidade da professora em “nortear o olhar” sobre o Brasil, dando protagonismo às mulheres da Amazônia Negra. O professor Jonas Pinheiro reforçou que o acesso de populações tradicionais à universidade hoje é fruto direto do caminho aberto por Zélia.
A cantora Gaby Amarantos também prestou tributo à pesquisadora, agradecendo pelos ensinamentos que permanecem como guia para as novas gerações. A trajetória de Zélia Amador de Deus, detalhada em registros da Agência Brasil, reafirma a importância de figuras que, como ela, dedicaram a vida a desmantelar preconceitos e construir pontes para um futuro mais justo.
O Fato Paulista segue acompanhando os desdobramentos das homenagens e o impacto do legado de Zélia Amador de Deus para a educação brasileira. Continue conosco para se manter informado com notícias relevantes, apuração rigorosa e uma cobertura comprometida com a verdade e a diversidade de temas que movem o nosso país.



