O cenário que outrora abrigava risos e o burburinho típico de corredores escolares deu lugar a uma realidade de silêncio e destruição nos últimos anos. No entanto, em um marco de resiliência e tentativa de normalidade, milhares de crianças na Faixa de Gaza voltaram às aulas presenciais no último sábado, 20 de setembro de 2026. O retorno ocorre após um hiato de quase três anos, período em que o sistema educacional do enclave foi praticamente desmantelado por um conflito que redefiniu a geografia e a demografia da região.
A retomada das atividades pedagógicas não acontece em edifícios convencionais. Sem a estrutura de alvenaria, destruída por bombardeios, os estudantes agora se acomodam em prédios severamente danificados, estruturas improvisadas com chapas de metal e, em sua grande maioria, em tendas de lona montadas sobre o solo arenoso. Para esses jovens, o retorno à escola representa mais do que o acesso ao currículo acadêmico; é a busca por um senso de rotina em um território onde a incerteza é a única constante.
O desafio de ensinar entre escombros e tendas
A magnitude da destruição é evidenciada por dados alarmantes do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), que aponta que 98% das escolas em Gaza foram destruídas ou danificadas durante os anos de guerra. Esse cenário deixou cerca de 660 mil alunos privados do ensino presencial regular, criando um abismo educacional que especialistas temem poder afetar gerações inteiras. A reabertura das escolas, embora celebrada, é descrita por autoridades locais como um marco extremamente frágil.
O custo humano para o setor educacional foi devastador. Segundo Ibrahim Ramadan, diretor de Educação de Khan Younis Oriental, o conflito vitimou cerca de 22 mil alunos e mais de 770 profissionais da educação, incluindo 532 professores. A perda desses quadros qualificados impõe um desafio adicional à reconstrução do sistema de ensino, que agora precisa lidar não apenas com a falta de infraestrutura física, mas também com o trauma psicológico profundo de alunos e mestres sobreviventes.
Sonhos que resistem à escassez e ao medo
Entre os estudantes que retornaram, as histórias de determinação se multiplicam. Moayed Abu Mustafa, morador de Khan Younis, expressou a alegria de voltar a estudar após três anos de interrupção. Mesmo diante da precariedade — sentado no chão de uma barraca sem ventilação, sem sapatos adequados ou materiais básicos como cadernos e canetas —, o jovem mantém o foco no aprendizado. A perda de amigos durante os combates é uma ferida aberta, mas a vontade de construir um futuro parece prevalecer sobre a dor do passado.
A situação de Samar Abu Salmi, uma jovem de 15 anos deslocada de sua casa, ilustra a transição do ensino digital para o presencial improvisado. Durante o auge do conflito, o aprendizado ocorria precariamente através de celulares, sem o contato direto com os professores. Agora, ela celebra a possibilidade de perseguir seus sonhos “de uma barraca para outra”. A falta de material escolar essencial, que se tornou financeiramente inacessível para sua família, é um obstáculo diário que ela compartilha com a maioria de seus colegas.
Para outros, como Yamen Abu Samra, de 14 anos, o retorno é permeado pelo medo. O ambiente escolar, que deveria ser um porto seguro, agora é visto com desconfiança devido à proximidade de áreas de conflito. O receio de balas perdidas e novos ataques aéreos acompanha o trajeto diário dos alunos, transformando o ato de estudar em um exercício de coragem constante sob o sol escaldante das tendas improvisadas.
Economia de guerra e o custo proibitivo da educação
Além da infraestrutura, a crise econômica severa imposta pelo bloqueio e pelas restrições de importação asfixia o retorno às aulas. Khaled Aliyan, comerciante de artigos de papelaria, relata que os preços dos materiais básicos dispararam. Um caderno simples, que antes do conflito custava cerca de 3 shekels (aproximadamente 1 dólar), hoje é comercializado por 15 shekels. Essa inflação galopante torna itens rudimentares em artigos de luxo para famílias que perderam tudo.
O Ministério da Educação, contando com o apoio de organizações internacionais, tenta mitigar essas dificuldades através da criação de pontos educacionais temporários. Estima-se que 540 mil alunos estejam frequentando essas aulas presenciais em escolas particulares improvisadas e centros de aprendizagem apoiados pelo Unicef. Para aqueles que permanecem em áreas de difícil acesso ou que deixaram o enclave, o ensino a distância continua sendo a única alternativa viável, apesar das limitações de conectividade e energia.
Enquanto as forças israelenses mantêm o controle sobre mais de 60% do território de Gaza, o futuro da educação na região permanece atrelado à estabilidade política e ao fim definitivo das hostilidades. A reabertura das escolas é um passo simbólico, mas a reconstrução real exigirá anos de investimento e, acima de tudo, a garantia de segurança para que o direito fundamental ao aprendizado não seja novamente interrompido por explosões.
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