A luta contra a dengue, uma das doenças tropicais mais desafiadoras no Brasil, ganhou um reforço significativo com a chegada da vacina Butantan-DV, desenvolvida pelo renomado Instituto Butantan. No entanto, em meio à esperança de conter os avanços da enfermidade, surge uma questão crucial para um grupo específico da população: gestantes, puérperas e lactantes. Para essas mulheres, a vacina tetravalente de dose única não é indicada, uma decisão baseada no princípio da precaução e na ausência de dados de segurança para esses públicos.
A contraindicação, embora possa gerar dúvidas, é um procedimento padrão na farmacovigilância e reflete o compromisso com a segurança de mães e bebês. O cenário da dengue no país, com surtos frequentes e a crescente preocupação com a saúde pública, torna a compreensão dessas diretrizes ainda mais vital para a população.
Restrições da vacina contra a dengue para grupos específicos
A vacina Butantan-DV, um imunizante tetravalente de dose única, representa um marco na prevenção da dengue. Contudo, o Instituto Butantan e as autoridades de saúde são claros: o produto não é recomendado para mulheres grávidas, lactantes (que amamentam) e puérperas (mulheres que deram à luz há até 45 dias e estão amamentando). A principal razão para essa restrição é a ausência de estudos clínicos específicos com esses grupos.
Mayra Moura, gerente de farmacovigilância do Butantan e diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), enfatiza a importância dessa precaução. “Como não há estudos da Butantan-DV com gestantes, lactantes e puérperas que amamentam, não há evidências que nos respaldam para fazer a vacinação delas com segurança, embora não haja indícios de eventos graves no bebê”, explica Moura. Ela ressalta que, apesar de outras experiências com vacinas atenuadas (de vírus vivo enfraquecido) não terem mostrado problemas graves em crianças, a ciência só pode se pronunciar sobre o que é comprovado.
O avanço da vacinação e a Butantan-DV no cenário nacional
A Butantan-DV foi aprovada no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 26 de novembro de 2025, com indicação para pessoas de 12 a 59 anos, conforme a bula. A incorporação ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, marcou o início de sua aplicação em janeiro de 2026, abrangendo inicialmente pessoas de 15 a 59 anos em cidades selecionadas de São Paulo, Minas Gerais e Ceará.
Em fevereiro de 2026, o Ministério da Saúde ampliou a campanha, incluindo 1,2 milhão de profissionais de saúde da atenção primária em todo o país. No estado de São Paulo, a Secretaria de Estado da Saúde expandiu ainda mais o acesso, oferecendo o imunizante a todos os profissionais de saúde das redes pública e privada, além da população geral de 59 anos.
A precaução com vacinas atenuadas na gravidez e amamentação
A contraindicação da Butantan-DV para gestantes não é um caso isolado, mas uma precaução comum a todas as vacinas atenuadas. O risco teórico reside na possibilidade de o vírus, mesmo enfraquecido, atravessar a placenta e infectar o feto. “Esse tipo de imunizante não é recomendado durante a gravidez, devido ao risco teórico de o vírus atravessar a placenta e infectar o bebê”, reforça Mayra Moura.
Apesar de haver estudos com outras vacinas atenuadas, como a da rubéola, que não registraram problemas de má formação em bebês de mulheres vacinadas inadvertidamente durante a gravidez, a falta de dados específicos para a Butantan-DV mantém a recomendação de não vacinar. Mulheres com potencial para engravidar são aconselhadas a evitar a gestação por pelo menos um mês após a vacinação, e a equipe médica deve ser informada para acompanhamento.
Para lactantes, o critério de precaução é similar, devido ao risco teórico de transmissão do vírus pelo leite materno. Embora a bula da Butantan-DV contraindique para lactantes, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) não contraindica para bebês acima de seis meses. No entanto, a recomendação geral é evitar a vacinação, a menos que o risco de a mãe contrair dengue seja extremamente alto, exigindo uma avaliação individual de risco-benefício. Para puérperas, a contraindicação se aplica apenas se estiverem amamentando.
Protocolo em caso de vacinação inadvertida e farmacovigilância
Apesar das recomendações claras, a vacinação inadvertida pode ocorrer. Nesses casos, é fundamental que gestantes, lactantes e puérperas imunizadas acidentalmente entrem em contato com uma unidade de saúde, preferencialmente onde a vacina foi aplicada, para que o caso seja notificado à secretaria municipal de saúde. Essa notificação é crucial para a farmacovigilância, que monitora a segurança dos medicamentos e vacinas após sua comercialização.
Além disso, é indicado contatar o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) do Instituto Butantan. Como fabricante, o Butantan fará o monitoramento do estado de saúde da mulher durante a gestação e até 60 dias após o nascimento do bebê. “Todo profissional de saúde tem o dever de notificar a vacinação inadvertida, mesmo dias depois”, explica Mayra Moura. O acompanhamento do Butantan inclui contato trimestral durante a gestação e após o nascimento, avaliando exames pré-natais e o estado de saúde da criança.
O SAC do Instituto Butantan está disponível pelo telefone 0800 7012850, WhatsApp (55 11 99414-3504) e e-mail (sac@butantan.gov.br).
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