Em um discurso de quase 40 minutos na abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em Nova York, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reiterou sua disposição em utilizar o poderio militar norte-americano contra países da América Latina e do Caribe. O tom adotado pelo mandatário na última terça-feira (22) sublinha uma política externa agressiva, focada na garantia de interesses estratégicos da Casa Branca no Hemisfério Ocidental.
Intervenção na Venezuela e o controle do petróleo
O centro da argumentação de Trump girou em torno da recente invasão à Venezuela, ocorrida em janeiro de 2026. O presidente celebrou o que classificou como um “acordo” petroleiro firmado com a presidente encarregada Delcy Rodríguez, que assegura a uma empresa vinculada ao Pentágono o controle de até 21% das reservas de petróleo venezuelanas. “Ao vencedor pertencem os espólios; todos vocês já ouviram isso”, declarou o líder norte-americano diante dos representantes globais.
A operação militar, que resultou no sequestro de Nicolás Maduro, foi justificada sob a premissa de que a Venezuela operava como um “narcoestado”. Contudo, a narrativa tem sido alvo de contestações. O Departamento de Justiça dos EUA recuou, em janeiro deste ano, das acusações de que Maduro lideraria o suposto “Cartel de Los Soles”. Além disso, especialistas frequentemente refutam a classificação do país como um narcoestado, e a própria Venezuela foi removida, na última semana, da lista de nações que não combatem o tráfico de drogas, na qual figurava desde 2005.
A retórica de segurança e a comparação com o terrorismo
Um dos pontos mais controversos do pronunciamento foi a equiparação direta entre os cartéis de drogas latino-americanos e organizações terroristas como o ISIS. Segundo Trump, essa ameaça justifica a mobilização das Forças Armadas dos Estados Unidos. “Acionei as Forças Armadas dos Estados Unidos para eliminá-los. Os cartéis são o ISIS do Hemisfério Ocidental”, afirmou.
Analistas internacionais alertam que essa retórica pode servir como um pretexto para intervenções diretas na política interna de países soberanos. O México, citado nominalmente, tem sido alvo frequente dessa pressão. Embora tenha mencionado manter boas relações com a presidenta Claudia Sheinbaum, Trump exigiu que o país retome o controle de seu território, classificando a situação na fronteira como inaceitável. Em resposta, Sheinbaum tem reforçado a soberania mexicana, rechaçando qualquer tentativa de ingerência externa sob o pretexto de combate ao crime organizado.
Tensões regionais e o contraponto brasileiro
O discurso de Trump ocorreu logo após a fala do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que defendeu a autonomia regional. Lula criticou a divisão do mundo em zonas de influência e as investidas neocoloniais, citando explicitamente os casos de interferência na Venezuela, Haiti e Cuba. O presidente brasileiro enfatizou que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”, uma resposta direta à doutrina de influência exercida pelos EUA na região.
A postura de Trump também gerou reações imediatas durante a sessão. A delegação de Cuba retirou-se do plenário em sinal de protesto contra as ameaças proferidas pelo presidente norte-americano. O cenário na ONU reflete um momento de alta tensão, onde a soberania das nações latino-americanas colide com a política de força da atual gestão da Casa Branca, conforme detalhado em análises da Agência Brasil.
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