Hoje, peço licença ao leitor para não falar de governos, eleições, partidos ou das disputas que movimentam Brasília.
Quero falar de política em outro sentido.
Da política da representação. Da ocupação dos espaços. Da construção de referências. E de um dos movimentos culturais mais importantes para a autoestima da periferia brasileira: a explosão do pagode nos anos 1990.
Assisti recentemente aos primeiros episódios da série documental Anos 90: A Explosão do Pagode. A produção recupera artistas, músicas e histórias que fizeram parte da formação de milhões de brasileiros. Para mim, porém, aquela narrativa possui um significado ainda mais pessoal.
Os anos 1990 foram os anos da minha adolescência. Foi naquela época que comecei a acompanhar o pagode, a ouvir aqueles grupos e a observar um movimento que crescia diante dos nossos olhos.
Mas o que acontecia ali era muito maior do que o sucesso de um gênero musical.
O pagode estava mudando o lugar social ocupado pela periferia.
Para compreender aquela transformação, é necessário reconhecer a importância do Fundo de Quintal. Foi aquele grupo, surgido das rodas do Cacique de Ramos, que ajudou a transformar a forma de tocar samba, introduzindo instrumentos, ritmos e uma sonoridade que serviria de base para praticamente tudo o que veio depois.
O Fundo de Quintal criou uma linguagem.
Nos anos 1990, uma nova geração transformou essa linguagem em um fenômeno nacional.
O pagode ganhou novas harmonias, aproximou-se da música romântica, ocupou as rádios, entrou nos programas de televisão e passou a vender milhões de discos. Raça Negra, Só Pra Contrariar, Negritude Júnior, Soweto, Os Travessos, Katinguelê, Art Popular, Exaltasamba e tantos outros se tornaram parte da vida cotidiana do país.
Mas existe uma dimensão política nesse movimento que não pode ser ignorada.
Jovens negros, muitos deles vindos de bairros periféricos, passaram a ocupar espaços de enorme prestígio e visibilidade. Eles apareciam bem vestidos, elegantes, admirados, desejados e bem-sucedidos.
Passaram a ser referências de comportamento, de moda e até de beleza.
Isso é extremamente relevante em um país que, durante tanto tempo, reservou aos homens negros representações associadas à pobreza, à violência, à subalternidade ou à marginalização.
O pagode apresentou outra imagem.
A imagem do homem negro romântico, sensível, talentoso, elegante e desejado. O cantor que falava de amor, sofria por paixão, conquistava multidões e se transformava em símbolo nacional.
Muitos daqueles artistas se tornaram verdadeiros símbolos sexuais de uma geração.
Isso pode parecer apenas uma consequência da fama, mas representa uma mudança muito profunda no imaginário social brasileiro. Quem aparece como protagonista também passa a ser visto como alguém que pode ocupar novos lugares na sociedade.
O pagode não ofereceu apenas entretenimento.
Ofereceu referências.
Para muitos jovens periféricos, assistir àqueles grupos nos principais programas de televisão significava enxergar pessoas com origens semelhantes alcançando lugares que antes pareciam inacessíveis.
Quando eles venciam, existia uma sensação de vitória compartilhada.
Era o garoto do bairro que agora estava na televisão. Era o grupo que começou em pequenas rodas e agora cantava para o Brasil inteiro. Era a periferia deixando de aparecer somente como cenário de problemas e passando a ser reconhecida como produtora de cultura, talento e riqueza.
Essa talvez tenha sido uma das grandes revoluções silenciosas promovidas pelo movimento.
Não se tratava de uma mobilização partidária. Não existia uma pauta eleitoral organizada. Mas havia uma transformação política evidente: novos grupos sociais passaram a disputar visibilidade, reconhecimento e poder simbólico.
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E poder simbólico também é poder.
A indústria cultural percebeu rapidamente a força daquele movimento. Vieram os contratos, as gravadoras, os programas de auditório, as grandes produções, os figurinos e as fórmulas comerciais.
Naturalmente, também surgiram excessos.
Em determinados momentos, o mercado tentou padronizar o pagode, criando grupos com estilos, roupas e repertórios semelhantes. Muitos artistas foram tratados como produtos de uma indústria que buscava repetir indefinidamente a mesma fórmula de sucesso.
Ainda assim, a força daquele movimento ultrapassou os interesses comerciais.
As músicas permaneceram.
Décadas depois, os refrões continuam sendo cantados por pessoas que viveram os anos 1990 e também por jovens que nem sequer haviam nascido naquele período.
Isso demonstra que o pagode não foi apenas uma moda passageira. Ele construiu uma memória afetiva coletiva.
As canções lembram os bailes, as festas, os churrascos, os namoros, as amizades e os encontros de uma geração. Em bairros como os da Zona Leste de São Paulo, essa relação era ainda mais intensa.
O Parque do Carmo, por exemplo, tornou-se palco de grandes eventos populares. Ali, a periferia não era convidada a visitar o centro da cidade para assistir à cultura. A cultura acontecia dentro do seu próprio território.
Os artistas chegavam até o público que havia ajudado a construir o sucesso deles.
Essa proximidade fazia toda a diferença.
Nós conhecíamos histórias de integrantes que moravam nos nossos bairros, circulavam pelas mesmas regiões ou haviam começado suas carreiras muito perto dali. Os Travessos tinham ligação com a Patriarca. O Soweto, o Raça Negra e tantos outros grupos faziam parte daquele universo cultural que se desenvolvia ao nosso redor.
Por isso, assistir hoje a um documentário sobre aquele período não representa apenas uma viagem musical.
É uma viagem social, cultural e política.
É reconhecer que o pagode dos anos 1990 ajudou a alterar a maneira como o Brasil enxergava a periferia e, principalmente, como a periferia enxergava a si própria.
O movimento ofereceu visibilidade a artistas negros, criou modelos de sucesso e mostrou que os bairros populares não eram apenas consumidores de cultura.
Eram produtores de cultura nacional.
O pagode ultrapassou gerações porque suas músicas falavam de sentimentos universais. Mas também porque carregava uma verdade social muito forte: a de que o talento poderia surgir em qualquer bairro, em qualquer rua, em qualquer quintal.
O Fundo de Quintal construiu a base. A geração dos anos 1990 ampliou aquela criação e conquistou o Brasil.
Mais do que fazer o país cantar, o pagode colocou a periferia no palco principal.
E, durante alguns minutos de cada música, fez milhões de jovens acreditarem que aquele palco também poderia pertencer a eles.




