Um projeto ambiental inovador, nascido em uma escola estadual da zona leste de São Paulo, está transformando a vida de estudantes e a biodiversidade local. O “Escola Biofílica”, da Escola Estadual MMDC, que começou com a simples observação de aves, expandiu-se para catalogar mais de 250 espécies de fauna e flora dentro dos próprios limites da unidade. Recentemente, a iniciativa ganhou destaque nacional e latino-americano ao ser apresentada no Avistar Brasil, o maior evento de observação de aves e turismo de natureza da América Latina.
Coordenado pelos professores Lucas Arjona e Caroline Lopes, o projeto é um exemplo de como a educação ambiental pode ir além da teoria, engajando ativamente os jovens na prática da conservação e da ciência cidadã. A jornada dos alunos, que inclui desde o plantio de árvores nativas até o uso de tecnologia para monitoramento ambiental, demonstra um modelo replicável de aprendizado que conecta a sala de aula com o mundo natural.
Da disciplina eletiva à plataforma de ciência cidadã
A semente do projeto foi plantada em 2024, a partir de uma disciplina eletiva – um componente curricular comum em escolas de período integral, onde os temas são escolhidos pelos próprios alunos em conjunto com os professores. A proposta inicial era ambiciosa: criar uma trilha ecológica e cuidar de espécies nativas no ambiente escolar. Contudo, o entusiasmo e o envolvimento dos estudantes fizeram com que a iniciativa rapidamente transcendesse os limites da disciplina, tornando-se uma parte integrante do cotidiano da escola.
O professor Lucas Arjona, de biologia e ciências, explica que o nome “Biofílica” foi escolhido intencionalmente, remetendo à biofilia – a afinidade inata dos seres humanos com a natureza e outras formas de vida – em oposição a fobias. O objetivo central é claro: aumentar a biodiversidade dentro do espaço escolar e proporcionar aos alunos um contato direto e significativo com o meio ambiente, muitas vezes escasso em grandes centros urbanos como São Paulo.
Atualmente, cerca de 50 estudantes estão envolvidos em diversas atividades, que vão desde o plantio e a recuperação ecológica de áreas degradadas até o monitoramento da fauna local e a observação da rica biodiversidade presente na escola. Essas ações não são apenas práticas; elas são registradas e compartilhadas na plataforma iNaturalist, uma ferramenta global de ciência cidadã que permite a qualquer pessoa contribuir com dados sobre a natureza.
Tecnologia e impacto na vida dos estudantes
A integração da tecnologia é um pilar fundamental do “Escola Biofílica”. Lucas Arjona revela que os alunos já realizaram mais de 600 observações no iNaturalist, permitindo catalogar as mais de 250 espécies de fauna e flora dentro da unidade escolar. Essa base de dados, acessível publicamente, está sendo expandida com o desenvolvimento de um site próprio, em parceria com estudantes do ensino técnico de desenvolvimento de sistemas. O projeto, segundo o professor, está se transformando em uma verdadeira plataforma de conhecimento ambiental.
Além disso, grupos de estudantes aprofundam seus estudos por meio de análise ambiental utilizando a linguagem de programação Python e pesquisas sobre espécies nativas. Essa abordagem multidisciplinar não só enriquece o aprendizado, mas também prepara os jovens para carreiras futuras em áreas que combinam ciência, tecnologia e sustentabilidade.
O impacto do projeto vai além do conhecimento técnico. A aproximação com a natureza tem se mostrado um catalisador para o desenvolvimento pessoal dos alunos. Marina Bella, de 12 anos, que prefere ambientes silenciosos, encontrou no projeto um refúgio e uma paixão. “Com o projeto, eu tenho contato com algo que realmente me agrada e a biologia me agrada bastante, tanto que pensei em ser bióloga”, conta. Ela destaca ainda o efeito calmante do contato com a natureza e a oportunidade de fazer novas amizades, melhorando sua socialização.
Outro exemplo é Renan Miranda, de 14 anos, que tem diagnóstico de TDAH. Ele encontrou no projeto um espaço para canalizar sua energia e se conectar mais com a rotina escolar. “O projeto me ajudou, porque eu mexi com coisas novas e passei a fazer coisas que tiram a minha agitação. Eu plantei árvores diferentes, como a pau-brasil, conheci insetos e árvores diferentes e o projeto foi me ajudando com os problemas que eu tenho”, relata Renan, reconhecendo uma melhora significativa em seu comportamento e engajamento escolar. O professor Lucas Arjona observa que essas transformações são frequentes, citando o caso de um estudante da educação inclusiva que encontrou no projeto um “refúgio mental” e um senso de pertencimento.
Reconhecimento no Avistar Brasil e além dos muros da escola
O ápice do reconhecimento do “Escola Biofílica” veio em maio, com a participação no Avistar Brasil. Este evento, que reúne anualmente milhares de entusiastas, pesquisadores e conservacionistas, é um ponto de encontro crucial para a discussão sobre conservação ambiental e biodiversidade na América Latina. A escola levou 36 estudantes para apresentar o projeto, promover atividades interativas com o público – como o plantio de sementes de árvores nativas da Mata Atlântica – e participar de observações de aves.
Durante o encontro, os alunos tiveram a oportunidade única de interagir com figuras proeminentes da área ambiental, como Rodrigo Agostinho, ex-presidente do Ibama, e Fernanda Abra, uma referência nacional em estudos sobre atropelamentos de fauna. Essa imersão não apenas validou o trabalho dos estudantes, mas também abriu horizontes para suas futuras aspirações.
Para Rafaela Baldin, de 16 anos, a experiência já é decisiva em seus planos de vida. “Hoje meu projeto de vida é ser zoóloga e quando entrei no projeto, não sabia muito bem o que eu queria ser, só sabia que seria algo na área de ciências. Com o exemplo dos professores Carol e Lucas, eu pude reforçar o que queria para mim”, afirma Rafaela, destacando a inspiração e o aprendizado sobre ambientalismo, ecologia e conservação.
O impacto do trabalho do professor Lucas Arjona e do projeto “Escola Biofílica” transcendeu os muros da MMDC. Recentemente, Lucas foi convidado a participar da “Orientação Técnica: Dia Nacional da Educação Ambiental”, organizada pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) e pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil). Sua participação, direcionada a representantes das 91 Unidades Regionais de Ensino do estado, demonstra o potencial do projeto como um modelo a ser replicado, fortalecendo a educação ambiental em toda a rede estadual de ensino de São Paulo.
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