A relação entre o setor privado e o regime militar brasileiro ganha novos contornos com o lançamento de Repressão Sociedade Anônima. A obra, escrita pelos jornalistas Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, detalha como bancos, metalúrgicas e montadoras atuaram ativamente na manutenção da ditadura, indo muito além da simples omissão ou conformidade com o governo da época.
A engrenagem do controle industrial
O livro é fruto de três anos de investigação documental e entrevistas, focando especialmente nas grandes indústrias do Grande ABC Paulista. Segundo os autores, a cooperação entre empresas e o aparelho repressivo do Estado era estruturada e financiada. Um dos achados mais contundentes da pesquisa foi a descoberta de que companhias privadas financiavam equipamentos para estandes de tiro utilizados pelo Dops, incluindo munições e itens de proteção individual, como protetores auriculares fornecidos pela General Motors.
Essa aliança não se limitava ao suporte financeiro. As empresas incorporavam militares em seus quadros e utilizavam informantes, conhecidos como arapongas, para monitorar o comportamento dos operários. O objetivo era claro: identificar, fichar e eliminar qualquer foco de resistência ou reivindicação trabalhista dentro das fábricas.
Vigilância e a criação das listas sujas
A perseguição aos trabalhadores atingia níveis sistêmicos. A participação em greves era suficiente para que um operário fosse incluído em uma rede de informações compartilhada entre diferentes corporações. Essa prática, que os autores identificam como uma forma primitiva de lista suja, impedia que o profissional demitido por motivos políticos ou sindicais conseguisse recolocação no mercado de trabalho, condenando famílias inteiras à marginalização econômica.
Além do controle ideológico, o período foi marcado por uma negligência deliberada com a segurança do trabalho. Em 1975, registros indicavam mais de cinco mil acidentes laborais em um único dia. Com a Justiça do Trabalho sob forte influência dos militares, as denúncias eram ignoradas, expondo a precarização extrema que sustentava a produtividade daquele modelo econômico.
O cotidiano de repressão das mulheres
A obra dedica espaço especial às condições enfrentadas pelas mulheres nas fábricas. Muitas começaram a trabalhar ainda na adolescência, entre 12 e 13 anos, enfrentando um ambiente de assédio constante e controle rigoroso sobre necessidades básicas. Relatos colhidos por Maria Angélica Ferrasoli descrevem situações humilhantes, como a necessidade de pedir chaves para acessar banheiros ou a limitação da quantidade de papel higiênico, que ficava sob controle direto das chefias.
O braço industrial do Dops
Um dos pontos mais reveladores da pesquisa é a existência do chamado Dopinho do ABC, uma espécie de filial do Departamento de Ordem Política e Social instalada em São Bernardo do Campo. Localizado a poucas quadras da sede do sindicato, o espaço funcionava como um centro de detenção e tortura. O local não recebia apenas sindicalistas, mas também lideranças de movimentos eclesiais de base e ativistas comunitários, consolidando um sistema de vigilância que unia o poder industrial à força policial.
A investigação sobre a colaboração empresarial não é inédita, mas ganha profundidade com novos documentos. Em 2021, o Ministério Público de São Paulo já havia divulgado um relatório apontando que a Volkswagen contribuiu intensamente com o aparato repressivo, com pleno conhecimento de sua direção. O historiador alemão Christopher Kopper, contratado pela própria montadora para investigar o passado, confirmou que a empresa foi irrestritamente leal ao governo militar.
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