Fiocruz concede título de pesquisador emérito a cientistas cassados pelo regime militar

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Fiocruz homenageia nove cientistas cassados pelo AI-5 em 1970. Ato de reparação histórica ocorreu no Dia Nacional da Saúde, no Rio de Janeiro.
Fiocruz concede título de pesquisador emérito a cientistas cassados pelo regime militar
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A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) realizou, nesta quarta-feira (5), uma cerimônia histórica para reparar danos causados pelo autoritarismo brasileiro. Em um ato de memória e justiça, a instituição outorgou o título de pesquisador emérito a nove cientistas que foram vítimas do chamado Massacre de Manguinhos, episódio ocorrido em 1970 durante a ditadura militar. A homenagem ocorreu no Dia Nacional da Saúde, data que também marca o nascimento de Oswaldo Cruz.

O legado do Massacre de Manguinhos

O termo Massacre de Manguinhos refere-se ao período em que o regime militar, por meio do Ato Institucional 5 (AI-5) e do AI-10, afastou compulsoriamente pesquisadores de renome da Fiocruz. A medida não apenas interrompeu carreiras brilhantes, mas também proibiu que esses profissionais exercessem cargos em qualquer outra instituição pública do país. O retorno desses cientistas à fundação só foi possível em 1986, durante o processo de redemocratização, sob a gestão de Sérgio Arouca.

Os nove homenageados na cerimônia foram Augusto Cid de Mello Perissé, Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, Haity Moussatché, Fernando Braga Ubatuba, Moacyr Vaz de Andrade, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Sebastião José de Oliveira e Domingos Arthur Machado Filho. Além deles, foi entregue um título simbólico aos herdeiros de Herman Lent, que também foi cassado em 1970 e já possuía o título de emérito desde 2004.

Ciência como pilar da democracia

Durante o evento, realizado nas escadarias do Castelo Mourisco, no Rio de Janeiro, o presidente da Fiocruz, Mario Moreira, enfatizou que a reintegração dos pesquisadores, iniciada décadas atrás, foi um gesto político fundamental. Segundo Moreira, o ato atual serve para reafirmar a ciência como base indispensável para a democracia, especialmente em um cenário contemporâneo marcado por desafios como o negacionismo e a desinformação.

“Reafirmamos a ciência como base da democracia, para que o país possa desenvolver-se de forma mais justa e mais equânime”, destacou o presidente. A cerimônia também prestou tributo à madre Maria de Fátima, chanceler da Universidade Santa Úrsula, cujo apoio foi crucial para que parte dos cientistas cassados pudesse continuar lecionando e produzindo conhecimento científico durante os anos de chumbo.

Trajetória de resistência e inovação

Entre os homenageados, destaca-se a figura de Augusto Périssé, cuja trajetória ilustra o impacto da repressão na ciência brasileira. Nascido em Barbacena (MG), Périssé foi um pesquisador pioneiro no estudo de venenos de diplópodes, conhecidos popularmente como piolhos-de-cobra, com o objetivo de desenvolver anestésicos inovadores. Suas pesquisas foram bruscamente interrompidas pelo regime, que também o impediu de assumir uma cátedra na Universidade de São Paulo (USP).

Mesmo no exílio, Périssé manteve o compromisso com o Brasil, recusando um convite para dirigir pesquisas na França por não aceitar abdicar de sua cidadania brasileira. A história de Périssé, assim como a de seus colegas, permanece como um lembrete da importância da liberdade acadêmica para o progresso da saúde pública e do desenvolvimento nacional. A Fiocruz reforça, com essas homenagens, seu compromisso com a preservação da memória institucional e a valorização de quem construiu a excelência da ciência brasileira.

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