Espetáculo teatral em São Paulo expõe estigma e marginalização de pessoas que vivem com HIV

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Espetáculo Ferida$ Política$ chega ao Grajaú para debater o estigma contra pessoas com HIV através da arte e do diálogo direto com o público.
© Lucas Gonzaga/Coletivo Contágio
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A luta contra o preconceito e a busca por visibilidade ganham os palcos da zona sul de São Paulo neste domingo (28). O Centro Cultural Grajaú recebe a peça Ferida$ Política$, uma montagem do Coletivo Contágio que utiliza a dramaturgia para escancarar a marginalização enfrentada por pessoas que vivem com HIV e aids. A apresentação faz parte da 3ª Mostra Transmissão Contágio e propõe um diálogo direto com o público através do bate-papo (Com)verso Positivo, realizado antes e depois da encenação.

Arte como ferramenta de resistência e denúncia

O espetáculo reúne sete artistas, entre brasileiros e latino-americanos, que levam ao palco suas próprias vivências. A proposta vai além do entretenimento: trata-se de um exercício de performance que questiona o estigma social que ainda cerca o vírus, frequentemente associado de forma equivocada e exclusiva à comunidade LGBTQIA+. Ao basear as cenas em experiências reais, o Coletivo Contágio busca humanizar estatísticas e provocar uma reflexão necessária sobre o impacto da desinformação na vida dos pacientes.

Ará Silva, coordenador e produtor executivo do grupo, destaca que o projeto nasceu de uma necessidade de ocupar espaços. Após ser diagnosticado com HIV em 2018, enquanto cursava o mestrado, Silva transformou sua trajetória em combustível para a criação artística. Para ele, a resistência do setor cultural em acolher a temática é um reflexo da própria sociedade, que ainda evita tratar a epidemia com a seriedade e a empatia exigidas.

A dimensão econômica da epidemia

O título da peça, Ferida$ Política$, não é casual. Segundo Silva, o nome carrega uma crítica contundente à estrutura socioeconômica que sustenta a exclusão. Para o coletivo, a epidemia de aids não é apenas uma questão de saúde pública, mas um problema profundamente ligado à desigualdade financeira e ao acesso precário a direitos básicos. Essa visão sistêmica é o que diferencia o trabalho do grupo, que busca evidenciar como o vírus circula em contextos de vulnerabilidade social.

O projeto é viabilizado pelo edital Coletivos 2025, da Coordenadoria de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST/Aids) da prefeitura de São Paulo. A iniciativa reforça a importância de políticas públicas que fomentem a cultura como meio de educação em saúde, especialmente em regiões periféricas, onde o acesso à informação de qualidade pode ser um fator determinante para a redução de novos casos e do preconceito.

Cenário epidemiológico e o papel do Brasil

Dados do Ministério da Saúde revelam a complexidade do cenário brasileiro. Entre 1991 e setembro de 2025, foram contabilizados 683.930 casos de infecção pelo HIV no país. Um ponto de atenção é a mudança no perfil de transmissão: em 2024, a proporção chegou a 28 homens infectados para cada 10 mulheres. O Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025 aponta que, enquanto entre jovens a exposição está concentrada em homens que fazem sexo com homens, em faixas etárias acima de 40 anos, o padrão heterossexual predomina.

O Brasil se prepara agora para sediar a 26ª Conferência Internacional sobre Aids (aids 2026), que ocorrerá no Rio de Janeiro no final de julho. O evento, que pela primeira vez acontece em um país da América do Sul, terá como tema central “Repensar. Reconstruir. Avançar”. A conferência será um marco para discutir a crise global de financiamento de programas de combate ao HIV e fortalecer o compromisso internacional com a erradicação da doença.

Serviço e engajamento

A apresentação no Grajaú é uma oportunidade para o público paulistano conhecer de perto essa iniciativa. A mediação do debate será feita por Diogo Emanuel, artista visual e coordenador da Travas da Sul Rede Sociocultural. A entrada é gratuita, com retirada de ingressos uma hora antes do início, reforçando o caráter democrático e acessível da mostra.

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