A recente proibição das operações de empresas de apostas online, as chamadas bets, no Brasil, trouxe à tona histórias dramáticas de indivíduos e famílias impactadas pelo vício em jogos. A Medida Provisória 1394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última sexta-feira (25), revogou as previsões da Lei 13.756, de 2018, que permitia a atuação dessas plataformas. Para muitos, como Kaio*, de 42 anos, a notícia foi um “grande alívio”, marcando o início de uma tentativa de recomeço após perder bens e emprego devido às dívidas de jogo.
A experiência de Kaio* é um reflexo do cenário que se desenrolou no país nos últimos anos. Vivendo isolado em um dormitório no interior de Goiás, temendo agiotas e afastado da família, ele reconhece que o vício transformou sua vida em um pesadelo. Sua busca por ajuda em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde participa de grupos terapêuticos e consultas médicas, tomando três medicamentos diariamente, ilustra a gravidade das consequências que as apostas online podem acarretar.
O Drama Pessoal por Trás da Proibição das Apostas
A história de Kaio* é um dos muitos testemunhos que emergem com a proibição das bets. Ele representa a face humana de um problema que se alastrou silenciosamente, afetando a saúde mental e financeira de milhares de brasileiros. O alívio sentido por ele ao saber da medida provisória sublinha a urgência de intervenções para conter os danos causados por essas plataformas.
A dependência de jogos, muitas vezes, leva à perda de bens materiais, ao endividamento severo e ao isolamento social. Kaio*, que perdeu seu carro, sua casa e seu emprego, é um exemplo contundente de como a vida de um indivíduo pode ser desestruturada. Sua jornada em busca de tratamento psiquiátrico e apoio terapêutico destaca a necessidade de uma rede de suporte robusta para aqueles que enfrentam o vício.
A Trajetória da Regulamentação e a Falta de Fiscalização
Embora as apostas online tenham sido aprovadas em dezembro de 2018, no final do governo Michel Temer, sua regulamentação efetiva só ocorreu em dezembro de 2023. Isso significa que, por cerca de cinco anos, as plataformas operaram no Brasil com pouquíssimas regras, um vácuo legal que permitiu a proliferação descontrolada e a exploração de vulnerabilidades.
A regulamentação tardia trouxe consigo a exigência de avisos de desestímulo ao jogo e advertências sobre seus malefícios nos anúncios. Contudo, conforme apontado pelo advogado Júlio Leone, muitas dessas regras, como o bloqueio de usuários compulsivos, não foram seguidas. Pelo contrário, as empresas frequentemente enviavam bônus e anúncios constantes, incentivando ainda mais o jogo, como Kaio* relatou, com seu celular “não parava de trazer mensagens”.
Vulnerabilidade Social e o Apelo Enganoso das Bets
A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo, que estuda o transtorno do controle de impulso, ressalta que pessoas em situação de vulnerabilidade são as mais suscetíveis ao vício em jogos. Elas foram alvo de desinformação e publicidade enganosa, que promovia uma falsa ideia de que as apostas poderiam ser uma fonte rápida de renda complementar.
Essa narrativa, de ganhos fáceis e imediatos, se mostrou extremamente perigosa, especialmente para aqueles que buscavam soluções rápidas para dificuldades financeiras. A exploração dessa esperança por parte das plataformas de apostas contribuiu para o aprofundamento de crises econômicas pessoais e familiares, transformando a promessa de lucro em um ciclo vicioso de perdas.
Impacto Financeiro e o Risco para Jovens
Os números revelam a dimensão do prejuízo. Apenas em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets, uma média de R$ 4,7 bilhões por mês entre outubro de 2024 e março de 2026. Esses dados, divulgados no Boletim Fiscal dos Estados pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), mostram que as perdas equivalem a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias, com as bets movimentando quase R$ 351 bilhões em transações via Pix no mesmo período.
Além do impacto financeiro geral, um levantamento da Equidade.info, a pedido da Frente Parlamentar Mista da Educação, revelou que um em cada cinco estudantes (20,4%) do ensino fundamental e médio já fez apostas online no último ano. Preocupantemente, as apostas começam cedo, com 9,5% dos estudantes de apenas 11 anos já envolvidos.
A psicóloga Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que os jovens são particularmente vulneráveis devido ao desenvolvimento cerebral. O núcleo de prazer e dopamina funciona intensamente, enquanto as regiões de controle de impulsos e avaliação de riscos só amadurecem completamente por volta dos 20 anos. “O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, afirma.
Alerta de Saúde Mental e a Busca por Ajuda
A dependência de apostas online não se limita a perdas financeiras; ela tem profundas implicações para a saúde mental. Profissionais de saúde têm observado que apostadores de todas as idades apresentam sinais de desesperança, sensação de estar sem saída, afastamento social, aumento do consumo de álcool e mudanças significativas de comportamento.
A psiquiatra Katia Branco alerta que falas relacionadas à morte ou ao desejo de não viver mais devem ser levadas a sério e motivar a busca por ajuda. A ideação suicida, frequentemente ligada aos prejuízos financeiros causados pelos jogos, precisa ser tratada abertamente em consultórios e grupos terapêuticos. A ansiedade extrema e o desespero são sentimentos comuns entre esses pacientes.
O neurocirurgião Orlando Maia destaca que muitos dependentes não reconhecem o problema por si mesmos, necessitando do apoio de familiares e amigos. A psicóloga Claudia Feres, que atua em um Caps no Distrito Federal, reforça a importância de procurar ajuda profissional. Ela relata casos de pacientes que chegam ao centro após tentativas de autoextermínio, em um “pedido de socorro desesperado”.
A facilidade de acesso às apostas online, disponíveis 24 horas por dia, agrava o problema. Como Luiz Carlos*, de 71 anos, membro dos Jogadores Anônimos, descreveu: “É um cassino dentro do seu bolso”. Ele expressa alívio por não jogar mais, lembrando que em sua época era preciso sair de casa para apostar, algo que hoje não é mais necessário. A proibição das bets no Brasil, portanto, representa um passo crucial na proteção da população contra os graves riscos associados a essa modalidade de jogo. Para mais informações sobre o tema e outros assuntos relevantes, continue acompanhando o Fato Paulista, seu portal de notícias comprometido com a informação de qualidade e a contextualização dos fatos que impactam a sociedade. Acompanhe as últimas atualizações sobre o tema aqui.




