Exercícios simples realizados com o próprio peso corporal e adaptados às condições de cada pessoa podem contribuir para reduzir a fragilidade de idosos. Um estudo recente desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP) mostrou que um programa de treinamento intervalado aplicado a pacientes em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de Sorocaba, no interior paulista, reverteu o estado de fragilidade, melhorou a força e o desempenho funcional de idosos, além de reduzir parâmetros da pressão arterial.
A pesquisa traz um panorama importante para a saúde pública em um cenário de envelhecimento populacional. A iniciativa demonstra como intervenções de baixo custo podem transformar a realidade de pacientes atendidos na rede pública de saúde, oferecendo mais qualidade de vida e autonomia para a terceira idade sem a necessidade de grandes investimentos em infraestrutura.
Entendendo a síndrome de fragilidade
De acordo com o orientador da pesquisa, o professor de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP Francisco Luciano Pontes Júnior, a fragilidade é uma condição clínica caracterizada pelo declínio em múltiplos sistemas fisiológicos. O problema reduz a capacidade do organismo de resistir a situações de estresse, como infecções comuns.
A condição está diretamente associada a dificuldades para realizar atividades do cotidiano, maior incidência de quedas, hospitalização e mortalidade. Dados estatísticos apontam que a prevalência de fragilidade é estimada em 9,1% no Brasil e em 17,4% no mundo, enquanto a pré-fragilidade atinge 51,8% dos brasileiros e cerca de 46% da população mundial.
Para diagnosticar o quadro, os especialistas utilizam o modelo Fenótipo de Fragilidade de Fried. O método avalia cinco critérios fundamentais:
- Perda de peso não intencional
- Exaustão e cansaço excessivo
- Força de preensão manual reduzida
- Baixa velocidade de marcha
- Baixo nível de atividade física
O paciente é considerado frágil quando preenche três ou mais quesitos. A classificação como pré-frágil ocorre com um ou dois pontos, enquanto o idoso robusto não apresenta nenhum dos critérios avaliados.
Metodologia e desenvolvimento do estudo
O trabalho científico acompanhou 60 participantes, com média de 74 anos, durante um período de seis meses. Os voluntários foram divididos aleatoriamente em dois grupos distintos: metade realizou sessões de exercícios com o próprio peso corporal, alternando esforço e recuperação três vezes por semana, enquanto a outra metade manteve suas atividades habituais como parâmetro de controle.
O autor da pesquisa realizada na EACH em parceria com a University of Manitoba, no Canadá, Lucas Marques Vieira, aponta que os avanços puderam ser notados precocemente. Os resultados completos do estudo foram publicados no periódico científico European Geriatric Medicine.
Como funcionavam as sessões de treinamento
As atividades físicas ocorriam três vezes por semana, com duração total de 30 minutos por encontro ao longo das 24 semanas. O planejamento de cada aula era estruturado em etapas bem definidas para garantir a segurança dos participantes.
O protocolo começava com cinco minutos dedicados ao aquecimento corporal. Na sequência, vinham 20 minutos de exercícios intervalados com o peso corporal, divididos em blocos de 30 segundos de esforço intercalados com 30 segundos de pausa. O encerramento contava com cinco minutos de alongamento voltados para a recuperação muscular.
Os movimentos incluíam variações de agachamentos e outras dinâmicas multiarticulares. Essas práticas envolveram diferentes combinações de membros inferiores, superiores e da região central do corpo, com intensidade ajustada gradualmente de moderada para vigorosa.
Resultados práticos e impacto na saúde
Após o período de intervenção, os dados revelaram melhorias expressivas na mobilidade e na independência dos voluntários. Entre os idosos classificados inicialmente como frágeis, 80% avançaram para a condição de pré-fragilidade e 20% alcançaram o status de robustos.
O levantamento também identificou uma queda na pressão arterial sistólica dos participantes. Os pesquisadores reforçam que a estratégia se mostrou viável para a atenção primária, valorizando também a presença do profissional de Educação Física junto às equipes multidisciplinares de saúde.
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