Poucos dos atuais moradores de Itaquera irão se lembrar dela, mas quem viveu no bairro entre os anos 50 e 60 certamente já ouviu falar de Maria das Cabras, uma das figuras mais folclóricas da nossa história local.
Na região onde hoje está a Vila Regina, existia antigamente um lugar conhecido como Buracão — uma grande depressão no terreno, cercada pelo cerrado que dominava a paisagem. Ali nascia um pequeno córrego que formava um lago modesto antes de seguir seu caminho até desaguar no Rio Jacú. Nesse cenário quase rural, isolado do restante de Itaquera, havia apenas dois barracos. Em um deles morava Dona Maria das Cabras; no outro, a igualmente folclórica Dolores.
A figura marcante de Maria
Maria era sempre vista com sua roupa longa — saia e blusa — e os cabelos cobertos por um lenço branco feito de pano de saco, cujas pontas caíam pelas costas até quase a cintura. Nas minhas lembranças de criança, quando eu tinha cinco ou seis anos, ela parecia ter entre quarenta e cinquenta anos, idade que, naquela época, já era considerada avançada.
As cabras que garantiam o sustento
O apelido vinha do que sustentava sua vida: as cabras. No quintal cercado por galhos de arbustos da região, ela criava cerca de vinte animais entre cabras, cabritinhos e um bode. Todos os dias, logo ao amanhecer, Maria reunia as cabras que estavam amamentando e saía pelas ruas do bairro para vender o leite fresco, ordenhado na hora. Era fácil saber quando ela estava chegando, pois vinha à frente de suas cabras acompanhadas de seus cabritinhos e de vários de seus cachorros que faziam um barulho único da mistura dos sons das latidas com o tilintar dos sinos que as cabras traziam junto ao pescoço.
Minha mãe era uma de suas freguesas. Quando Maria chegava ao nosso portão, eu e minha irmã Ana já estávamos com nossas canecas na mão, prontos para beber o leite quentinho que ela tirava ali mesmo, diante de nós. Era um tempo em que não havia a fartura de marcas e tipos de leite que temos hoje. Ou era o leite das vacas do Seu João das Vacas, que também percorria o bairro com suas leiteiras, ou era o leite das cabras da Dona Maria.
O fim do Buracão e o desaparecimento das personagens
Com o crescimento populacional e a expansão imobiliária, os campos e chácaras deram lugar aos bairros que conhecemos hoje: A.E. Carvalho, Vila Regina, Itapemirim e parte da Campanela. O Buracão foi soterrado, os córregos canalizados e, com isso, Dona Maria das Cabras e Dolores foram desalojadas de seus barracos.
Não sei qual foi o destino de Dona Maria das Cabras. Mas sinto que registrar sua história aqui é uma forma de garantir que ela não seja esquecida pela Itaquera de hoje e de amanhã. Personagens como ela fazem parte da memória viva do bairro e merecem permanecer presentes em nossas lembranças.




