Pesquisa da Unifesp identifica vestígios de sangue no antigo Doi-codi em São Paulo

PUBLICIDADE
Pesquisa da Unifesp encontra vestígios de sangue e calendário de prisioneiro no antigo DOI-Codi, em São Paulo, revelando marcas da ditadura.
Pesquisa da Unifesp identifica vestígios de sangue no antigo Doi-codi em São Paulo
PUBLICIDADE

Vestígios de sangue revelam marcas da repressão

Uma investigação científica conduzida pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) trouxe à tona evidências materiais contundentes sobre o funcionamento do antigo Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), localizado na Rua Tutóia, na capital paulista. Pesquisadores identificaram resíduos compatíveis com sangue humano em áreas que, historicamente, serviam como salas de interrogatório e enfermaria durante o período da ditadura militar brasileira.

O trabalho, que utiliza técnicas avançadas de arqueologia forense, buscou superar as sucessivas camadas de reformas e pinturas que tentaram apagar a memória do local. Embora as análises laboratoriais não tenham permitido a extração de perfis de DNA — devido à degradação natural do material e às intervenções estruturais sofridas pelo prédio ao longo das décadas —, o contexto arqueológico permitiu associar os vestígios ao período de atividade repressiva do órgão.

O calendário como resistência ao isolamento

Além dos resíduos biológicos, a equipe de pesquisadores realizou uma descoberta simbólica em um banheiro do terceiro andar do edifício. Sob diversas camadas de tinta, foram reveladas inscrições gravadas na parede que formavam um calendário, contendo marcações manuais referentes aos dias 23 a 31 de outubro e 1º a 4 de novembro. A descoberta é interpretada como uma tentativa desesperada de um prisioneiro de manter a noção de tempo e a sanidade em meio ao isolamento forçado.

A datação do registro, que inicialmente oscilava entre 1970 e 1981, foi confirmada para o ano de 1970 após o cruzamento de dados com o depoimento de uma ex-presa política. Ela relatou ter visto a inscrição durante seu período de detenção em 1971, consolidando o calendário como uma marca material direta da experiência de encarceramento naquele espaço.

Arquitetura como documento histórico

O complexo do DOI-Codi/SP, que funcionou como um dos principais centros de tortura e interrogatório do país, recebeu mais de 7 mil pessoas durante seu período de operação. Oficialmente, são reconhecidas pelo menos 52 mortes ocorridas dentro das dependências do órgão. A pesquisa atual foca no prédio 2-a, identificado por sobreviventes como o epicentro das atividades de inteligência e violência do complexo.

A metodologia adotada pela Unifesp, em parceria com instituições como Unicamp, UFMG, UFSC e USP, trata o edifício não apenas como um cenário, mas como um documento histórico. A ausência de plantas detalhadas e registros oficiais das reformas obrigou os cientistas a combinar fontes documentais, relatos de sobreviventes e escavações arqueológicas. Conforme aponta Cláudia Plens, docente da Unifesp e coordenadora da frente de arqueologia forense, a análise física das paredes e pisos permite recuperar uma memória que o tempo e as intervenções humanas tentaram ocultar.

O Fato Paulista segue acompanhando os desdobramentos desta investigação, que é fundamental para a preservação da memória histórica e para o esclarecimento de crimes cometidos contra os direitos humanos no Brasil. Continue acessando nosso portal para se manter informado sobre reportagens aprofundadas, análises políticas e fatos que moldam a nossa sociedade.

PUBLICIDADE

Deixe um Comentário