Escritora Carla Akotirene critica visão simplificada do racismo e aponta violência estrutural

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Carla Akotirene critica a simplificação do racismo a atos isolados, destacando sua natureza estrutural e institucional no Brasil.
Escritora Carla Akotirene critica visão simplificada do racismo e aponta violência estrutural
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A escritora e pesquisadora baiana Carla Akotirene trouxe à tona uma crítica contundente sobre a forma como o racismo é percebido e debatido na sociedade brasileira. Em sua palestra de abertura do 14º Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as) (Copene), realizado na Universidade de Brasília (UnB), na última terça-feira (28), Akotirene lamentou a redução da complexidade do racismo a atos isolados, como xingamentos, desconsiderando suas raízes estruturais e institucionais.

Para a autora, a discussão sobre o racismo tem sido superficializada, focando em manifestações pontuais e visíveis, enquanto as formas mais profundas e sistêmicas de violência racial permanecem invisíveis ou são ignoradas. Sua análise, que se aprofunda nas intersecções entre racismo e sexismo, convida a uma reflexão mais ampla sobre como a discriminação racial opera em diversos níveis da sociedade.

A complexidade do racismo estrutural e institucional

Carla Akotirene argumenta que o racismo vai muito além de ofensas diretas, sendo uma força intrínseca às estruturas sociais, políticas e econômicas do país. Essa perspectiva desafia a ideia de que o problema se restringe a indivíduos preconceituosos, apontando para um sistema que perpetua desigualdades e violências de forma sistemática contra a população negra.

A pesquisadora enfatiza que a simplificação do debate, ao focar apenas em atos flagrantes de injúria racial, desvia a atenção das manifestações mais sutis e, muitas vezes, mais devastadoras do racismo. Ele se manifesta na falta de acesso a direitos básicos, na sub-representação em espaços de poder e na forma como instituições operam, perpetuando ciclos de exclusão.

A invisibilidade da violência em ambientes fechados

Um dos pontos centrais da crítica de Akotirene é a invisibilidade de certas formas de racismo e sexismo, especialmente em ambientes onde a fiscalização é escassa. Ela destaca que a militância antirracista precisa ir além dos flagrantes filmados de xingamentos, que, embora importantes, representam apenas a ponta do iceberg.

A escritora cita unidades de saúde e, principalmente, penitenciárias como locais onde as ações de racismo e sexismo ocorrem diariamente, mas sem registro. “Não é filmado porque na cadeia não entra celular. A prisão é o próprio racismo”, afirmou, baseando-se em sua pesquisa etnográfica em uma penitenciária feminina na Bahia. Para ela, “quanto pior é a cadeia, maior é a função racista no tempo”, revelando a brutalidade e a seletividade racial do sistema prisional brasileiro.

Akotirene defende que pesquisadores e a sociedade em geral precisam conhecer a fundo a lei de execução penal no Brasil e entender como a violência contra a mulher se manifesta dentro das prisões. Ela ressalta que o poder público, muitas vezes, mantém uma estrutura de violência contra pessoas em privação de liberdade, especialmente mulheres negras, que nunca deixaram de ser subalternizadas e tomadas pelo patriarcado.

O sistema de justiça e a criminalização racial

A análise de Carla Akotirene se estende ao sistema judicial, onde ela identifica um processo racista que vai do policial ao magistrado. Há, segundo a pesquisadora, uma tentativa sistemática de criminalizar mais os indivíduos pardos e pretos, evidenciando o viés racial na aplicação da lei.

Ela descreve situações em que a polícia age de forma direcionada em comunidades negras, buscando culpados e submetendo pessoas à tortura, especialmente durante a noite. Os processos de prisão em flagrante, muitas vezes, são conduzidos de forma açodada e tendenciosa, resultando na criminalização desproporcional de pessoas pretas. Essa realidade expõe a fragilidade dos direitos e a persistência de práticas discriminatórias dentro das instituições de segurança e justiça.

O papel do movimento negro na transformação social

Akotirene também refletiu sobre a importância histórica do movimento negro brasileiro. Ao compartilhar sua própria experiência como a primeira pessoa de sua família a ingressar no ensino superior, ela contextualizou essa conquista dentro de uma luta coletiva. “A gente está aqui porque o movimento negro brasileiro reconfigurou as universidades públicas desse país. Quantas pessoas morreram para que a gente pudesse estar aqui?”, questionou, ressaltando o legado de sacrifício e resistência.

O 14º Copene, evento que sediou a palestra de Carla Akotirene e que segue com programação até sexta-feira (31), tem como objetivo debater projetos de pesquisa, ensino e extensão focados nas relações étnico-raciais no Brasil. As temáticas abordam a realidade social brasileira, valorizando experiências comunitárias, acadêmicas e políticas que fortalecem a luta antirracista em diferentes territórios.

A visão de Carla Akotirene reforça a urgência de uma compreensão aprofundada do racismo, que vá além das aparências e enfrente suas manifestações estruturais e institucionais. É um convite à ação e à reflexão crítica sobre o papel de cada um na construção de uma sociedade mais justa e equitativa.

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