Mestra Fatinha comemora 70 anos em encontro de jongo que exalta a cultura afro no Vale do Café

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jongo - Mestra Fatinha celebra 70 anos em encontro de jongueiros que reafirma a resistência cultural e a história afro-brasileira no Vale do Café.
Mestra Fatinha comemora 70 anos em encontro de jongo que exalta a cultura afro no Vale do Café
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O Vale do Café, no sul fluminense, tornou-se palco de uma celebração que une história, ancestralidade e resistência. Aos 70 anos, Maria de Fátima da Silveira Santos, a Mestra Fatinha, comemora sete décadas de vida em um momento emblemático para a cultura afro-brasileira: a realização do 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café. O evento, que coincide com as festividades do Dia Estadual do Jongo, reúne cerca de 450 lideranças de 18 comunidades tradicionais e quilombolas dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.

A escolha do local para o encontro não é casual. As atividades ocorrem no Parque das Ruínas de Pinheiral, área que abrigou a histórica fazenda São José dos Pinheiros. Durante o período colonial, o local foi um dos maiores polos cafeeiros da região, onde mais de 3 mil pessoas escravizadas foram forçadas ao trabalho. Hoje, o espaço é ressignificado pelo Centro de Referência de Estudo Afro do Sul Fluminense (Creasf), que utiliza o território para manter viva a memória e as tradições de matriz africana.

Legado de resistência e militância cultural

Para Mestra Fatinha, o jongo transcende a expressão artística; é uma ferramenta política e social. Com 50 anos dedicados à preservação da cultura negra, ela define a prática como a “verdadeira bandeira de luta do povo preto”. Segundo a matriarca, o jongo era o meio pelo qual os antepassados organizavam a resistência, mantinham laços afetivos e preservavam a memória da África e o culto aos orixás em meio ao regime de escravidão.

A trajetória de Fatinha na militância ganhou força entre o final dos anos 80 e início dos anos 90, período em que atuou no Clube Palmares, em Volta Redonda. Sua consciência política foi forjada no seio familiar, onde a música e a tradição sempre foram pilares. “Meus pais e avós sempre foram muito conscientes do que é ser negro nesse país. Na minha família, a cultura sempre foi o caminho”, relata a mestra, cuja mãe, aos 93 anos, mantém viva a prática do canto.

Reconhecimento acadêmico e protagonismo negro

O trabalho de Mestra Fatinha alcançou o reconhecimento do meio acadêmico, consolidando uma ponte entre o saber tradicional e a universidade. No último ano, ela recebeu o título de notório saber pela Universidade Federal Fluminense (UFF), instituição com a qual colabora há mais de uma década em projetos de extensão. Essa parceria é vista pela líder como um passo fundamental para que a história seja contada sob a perspectiva de quem a construiu.

“Aqui no Vale do Café se trabalha muito a memória dos barões, e a gente vem fazendo a contramão, contando a história do povo preto, porque o nosso povo é que construiu todo esse império”, afirma. Para ela, ser essa referência é essencial para que crianças e adolescentes valorizem a luta de seus antepassados e compreendam o papel central da população negra na formação do Brasil.

Certificação e o futuro do território quilombola

Além da preservação cultural, o trabalho de Fatinha e do Jongo de Pinheiral tem gerado frutos na esfera administrativa e territorial. No ano passado, a Fundação Palmares certificou a região como comunidade quilombola, um marco que impulsiona o processo de delimitação da área junto ao Incra. A medida é vista como um instrumento de visibilidade e proteção, permitindo que a comunidade desenvolva suas práticas com maior autonomia e segurança jurídica.

O jongo, reconhecido pelo Iphan como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil desde 2005, segue como uma das manifestações mais potentes da Região Sudeste. Com raízes Bantu, a tradição sobreviveu ao tempo e, após a abolição, migrou das lavouras para os morros cariocas, influenciando diretamente a gênese das escolas de samba.

Programação e continuidade da tradição

O 5º Encontro de Jongos do Vale do Café é uma articulação coletiva que envolve diversas entidades, como a Rede de Jongo do Vale do Café e o Instituto Floresta, com apoio de órgãos federais e municipais. A programação se estende até este domingo (26), data que marca o Dia de Sant’Ana e o Dia Estadual do Jongo.

O encerramento será marcado por uma procissão tradicional, com mais de 100 anos de história, em homenagem à santa — sincretizada como Nanã nas religiões de matriz afro-brasileira. A saída ocorre às 18h, na Casa do Jongo de Pinheiral, reafirmando o compromisso da comunidade com a fé e a ancestralidade. O Fato Paulista segue acompanhando os desdobramentos desta e de outras pautas que valorizam a cultura e a história do nosso país. Continue conosco para se manter informado com credibilidade e profundidade.

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