A decisão de parar de fumar representa um dos maiores desafios para milhões de pessoas em todo o mundo. A dependência da nicotina, intrinsecamente ligada a hábitos diários e ao uso do cigarro como válvula de escape para o estresse e outras emoções, transforma a cessação em uma jornada árdua. Nesse cenário, o Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP tem se destacado ao oferecer um serviço inovador de telemedicina, que não apenas democratiza o acesso ao tratamento, mas também garante um acompanhamento especializado e contínuo para aqueles que buscam abandonar o tabagismo.
No Brasil, a urgência de iniciativas como essa é palpável: 9,3% da população ainda fuma, e a cada hora, aproximadamente 20 pessoas perdem a vida devido a doenças diretamente relacionadas ao tabagismo. Esses números alarmantes sublinham a importância de programas de apoio eficazes, que agora encontram na telemedicina um aliado poderoso para alcançar um público mais amplo e oferecer suporte qualificado.
A complexa batalha contra o tabagismo
O tabagismo é muito mais do que um hábito; é uma doença crônica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A médica sanitarista e do trabalho Telma de Cássia dos Santos Nery, da Divisão de Pneumologia do Incor, explica que o cérebro desenvolve um sistema de recompensa associado à nicotina. “O cérebro se acostuma com aquele sistema de recompensa, de prazer. As pessoas acabam sentindo como se o tabaco, como se fumar qualquer tipo de nicotina, trouxesse alegria e ajudasse a aliviar a tristeza e a angústia”, detalha a especialista.
Essa complexa interação neuroquímica e comportamental torna o processo de cessação extremamente difícil, exigindo não apenas força de vontade, mas também estratégias terapêuticas que abordem tanto a dependência física quanto a psicológica. A compreensão do tabagismo como uma doença é fundamental para desmistificar a dificuldade de largar o cigarro e para encorajar a busca por ajuda profissional, sem estigmas.
SUS e a inovação da telemedicina no Incor
Desde 1986, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem sido um pilar no combate ao tabagismo, oferecendo tratamento gratuito em todo o país. “Qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode procurar uma unidade de saúde ou um serviço especializado do SUS e informar que tem dependência de nicotina ou que deseja parar de fumar”, reforça a médica Telma Nery, destacando a abrangência do sistema público de saúde.
No Incor, o atendimento é direcionado a pacientes encaminhados ao serviço. O processo começa com uma triagem detalhada, que visa identificar os padrões de consumo de tabaco e, a partir daí, definir a abordagem terapêutica mais adequada para cada indivíduo. A grande inovação veio em maio de 2021, com a implementação do acompanhamento por telemedicina, que utiliza a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) como base. Essa modalidade em grupo inicia novas turmas mensalmente, sempre na primeira quarta-feira, e compreende quatro sessões semanais, oferecendo flexibilidade e acessibilidade.
Após a avaliação inicial, o paciente tem a liberdade de escolher entre o acompanhamento presencial nos ambulatórios do Incor ou a conveniência da modalidade online. Os grupos de telemedicina, que reúnem entre 10 e 15 participantes, são um exemplo de como a tecnologia pode ser uma ferramenta de inclusão. Para garantir que ninguém fique de fora, a equipe do Incor oferece suporte técnico para o uso das plataformas digitais, assegurando a participação plena de todos.
Resultados promissores na jornada de cessação
A eficácia da telemedicina combinada à Terapia Cognitivo-Comportamental na cessação do tabagismo foi objeto de um estudo descritivo realizado por pesquisadores do Incor entre 2021 e 2023. A pesquisa analisou uma série de indicadores cruciais, como a frequência dos participantes nas quatro sessões semanais, dados demográficos (idade, sexo, raça/cor), a redução do número de cigarros consumidos e, finalmente, a interrupção completa do uso de tabaco.
Com um total de 154 participantes avaliados, os resultados foram encorajadores: 5% dos pacientes conseguiram reduzir o consumo de cigarros em 50% já na primeira sessão. Esse percentual subiu para 16% na segunda sessão, 18% na terceira e 5% na quarta sessão. Esses dados demonstram o impacto positivo e progressivo do programa, oferecendo uma perspectiva otimista para a saúde pública e para a vida de milhares de brasileiros.
Conscientização e o desafio das novas gerações
Em um período em que o cigarro tradicional e os novos dispositivos de nicotina, como os vapes, voltam a ganhar visibilidade e até certo glamour em redes sociais e diversos contextos culturais, a intensificação das ações de prevenção e conscientização torna-se ainda mais vital. Para Telma Nery, a ampliação do acesso à informação sobre os riscos inerentes ao tabagismo permanece como uma das estratégias mais eficazes para prevenir que as novas gerações desenvolvam a dependência da nicotina.
A luta para parar de fumar é contínua e exige um esforço conjunto da sociedade, dos profissionais de saúde e das políticas públicas. Iniciativas como a do Incor, que integram tecnologia e cuidado humano, são essenciais para construir um futuro com menos tabagismo e mais saúde para todos.
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