Norma Bengell: a diva de ‘Toma Lá, Dá Cá’ que recusou tratamento de câncer e morreu aos 78 anos

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A icônica Norma Bengell, atriz de 'Toma Lá, Dá Cá' e musa do Cinema Novo, faleceu aos 78 anos após uma decisão pessoal de recusar o tratamento de câncer.
Toma Lá, Dá Cá: Atriz morreu após recusar tratar câncer grave aos 78 anos
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A televisão brasileira guarda capítulos de grande emoção e relevância cultural, e um deles é a trajetória de Norma Bengell, uma das mais brilhantes atrizes que marcou gerações. Conhecida por sua versatilidade, ela deu vida a personagens icônicos, incluindo Deise Coturno no humorístico “Toma Lá, Dá Cá”, da Globo, mas sua vida e carreira foram muito além dos palcos e telas, culminando em uma decisão pessoal profunda nos seus últimos anos.

Bengell, que foi uma das maiores divas do cinema e da dramaturgia nacional, reinventou-se ao integrar o elenco do programa de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa. Sua personagem, Deise Coturno, era uma figura excêntrica que nutria uma paixão platônica pela empregada Bozena, interpretada por Alessandra Maestrini. Esse papel, embora cômico, foi uma vitrine de sua capacidade artística, apresentando-a a um público mais jovem que talvez não conhecesse sua vasta e histórica contribuição à cultura brasileira.

Deise Coturno e o legado de uma atriz versátil

A participação de Norma Bengell em “Toma Lá, Dá Cá”, como a inesquecível Deise Coturno, representou um momento de renovação em sua longa carreira. A personagem, com seu humor peculiar e suas tiradas memoráveis, rapidamente caiu no gosto popular, consolidando a imagem de Bengell como uma artista capaz de transitar com maestria entre o drama e a comédia. Para muitos, foi a oportunidade de redescobrir uma atriz que já havia deixado sua marca indelével em outras esferas da arte.

Sua habilidade de se adaptar e brilhar em diferentes formatos e épocas da televisão e do cinema brasileiro é um testemunho de seu talento e resiliência. A personagem Deise Coturno não apenas divertiu, mas também reforçou a percepção de uma artista completa, que, mesmo após décadas de carreira, ainda tinha muito a oferecer ao público e à cultura do país.

Os últimos anos: vulnerabilidade e a difícil decisão

Após o encerramento de “Toma Lá, Dá Cá”, a vida de Norma Bengell tomou um rumo mais desafiador. A atriz enfrentou um período de severa vulnerabilidade, marcado por dificuldades financeiras, muitas vezes ligadas à sua paixão pela produção independente de filmes. Paralelamente, sua saúde começou a declinar rapidamente, com sucessivas quedas graves em sua residência que a levaram a depender de uma cadeira de rodas, um sinal da fragilidade que se instalava.

Em 2013, o cenário tornou-se ainda mais crítico com o diagnóstico definitivo de um câncer no pulmão direito. Aos 78 anos, vivendo de forma reclusa em seu apartamento em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, Norma Bengell tomou uma decisão que gerou grande repercussão na mídia: ela optou por recusar expressamente o tratamento convencional contra a neoplasia. Relatos da época indicam que a atriz preferiu preservar sua autonomia pessoal até o fim, recusando procedimentos médicos invasivos que, em seu entendimento, poderiam comprometer ainda mais sua qualidade de vida, já fragilizada por problemas respiratórios crônicos. Essa escolha, embora difícil, refletiu sua busca por dignidade e controle sobre seu próprio destino.

Um adeus discreto: a partida de uma estrela

A artista faleceu no dia 9 de outubro de 2013, no Hospital Rio-Laranjeiras. A notícia de sua partida, embora esperada dada a gravidade de seu estado de saúde e sua decisão de não tratar o câncer, trouxe à tona uma realidade de solidão que marcou seus últimos dias. O velório, realizado no Cemitério São João Batista, registrou a presença de apenas 15 pessoas, um número surpreendentemente pequeno para uma figura de sua estatura artística e histórica.

Entre os presentes para dar o último adeus, estavam familiares muito próximos, como seu primo Egiberto Guimarães Costa, e pouquíssimos colegas de profissão de sua época. Sem filhos e viúva do ator italiano Gabriele Tinti, a estrela viveu seus últimos dias sob os cuidados exclusivos de uma acompanhante contratada. Em um gesto que selou sua essência livre e desprendida, suas cinzas foram lançadas ao mar na Pedra do Arpoador, respeitando seu desejo final e marcando um adeus tão discreto quanto sua última fase de vida.

Norma Bengell: pioneirismo, arte e resistência

Para além da inesquecível Deise Coturno, Norma Bengell deixou uma marca indelével e inestimável na cultura e na história do Brasil. Sua trajetória foi um mosaico de pioneirismo, talento e engajamento:

  • Pioneirismo no cinema: Ela protagonizou o primeiro nu frontal do cinema nacional no filme Os Cafajestes (1962), um marco de ousadia e modernidade para a época. No mesmo ano, participou do clássico O Pagador de Promessas, a única obra brasileira premiada com a cobiçada Palma de Ouro no Festival de Cannes, solidificando seu nome no cenário cinematográfico mundial.
  • Cineasta e produtora: Sua visão artística a levou também para trás das câmeras. Norma Bengell dirigiu obras de extrema relevância política, artística e histórica, como o aclamado filme Eternamente Pagu, que retratou a vida da escritora e militante Patrícia Galvão.
  • Musa da Bossa Nova: Sua faceta como cantora profissional a levou a gravar discos de sucesso e a dividir palcos importantes com gigantes da música brasileira, como Tom Jobim e Vinicius de Moraes, tornando-se uma das musas do movimento da Bossa Nova.
  • Militância contra a opressão: Norma Bengell foi uma figura ativa de resistência cultural, sofrendo perseguições pesadas e prisões arbitrárias durante o período da ditadura militar. Sua coragem e engajamento resultaram em seu reconhecimento posterior como anistiada política, um testemunho de sua luta pela liberdade e pela arte.

A trajetória de vida de Norma Bengell permanece na história da televisão e do cinema como um lembrete da importância de se preservar a memória daqueles que, por décadas, dedicaram sua arte a construir a identidade cultural do Brasil. Sua coragem, talento e as escolhas que fez, até mesmo em seus momentos finais, ressoam como um legado de autenticidade e paixão pela vida e pela arte.

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