A história do futebol feminino no Brasil é marcada por décadas de resistência, superação e uma luta incansável por espaço em um cenário que, por muito tempo, foi hostil e proibitivo. Na última sexta-feira (26), o programa Sem Censura, da TV Brasil, trouxe à tona esse legado ao receber três figuras fundamentais dessa trajetória: Marilza Martins da Silva, a Pelezinha; Marisa Pires, a Caju; e Márcia Matos, a Russa. O encontro aconteceu em um momento simbólico, a apenas um ano da Copa do Mundo da modalidade que será sediada no país.
O legado do Esporte Clube Radar e a resistência em campo
Para entender o futebol feminino atual, é preciso olhar para o passado. Durante décadas, a prática do esporte por mulheres foi proibida no Brasil por um decreto da era Vargas, nos anos 1940, sendo regularizada apenas em 1980. Nesse contexto de proibição e posterior retomada, o Esporte Clube Radar, fundado em 1932 em Copacabana, tornou-se um pilar essencial. Sob a liderança do empresário Eurico Lyra, o clube abraçou a modalidade feminina em 1981, funcionando como a base da própria Seleção Brasileira durante a década de 80.
As convidadas relembram com emoção o período em que a paixão pelo jogo superava a falta de estrutura. Pelezinha, apelidada pelo próprio Eurico por sua habilidade singular de driblar na areia, recorda a surpresa de representar o país na China em 1988. Naquela época, o sonho de vestir a camisa com o emblema da CBF era algo distante, quase inimaginável diante das barreiras impostas pela sociedade.
A realidade das arquibancadas e a luta pela valorização
Um dos pontos altos do debate foi a desmistificação sobre o público nos estádios. Caju, que foi a primeira capitã da seleção brasileira feminina, rebateu a ideia de que o futebol feminino sempre jogou para arquibancadas vazias. Segundo ela, desde o primeiro Campeonato Sul-Americano em 1995, em Uberlândia (MG), o interesse era real. Os homens, muitas vezes céticos, acabavam surpreendidos pela qualidade técnica das atletas, descobrindo que o futebol, de fato, também pertencia às mulheres.
A realidade financeira, contudo, era brutalmente diferente da atual. As jogadoras não possuíam salários fixos e dependiam do chamado “bicho”, uma premiação paga por partida disputada. Se o time perdesse, o retorno financeiro era nulo. Foi a persistência e o amor ao esporte que mantiveram a chama acesa, permitindo que a modalidade alcançasse o patamar de visibilidade que desfruta hoje.
Justiça histórica e o reconhecimento oficial
O programa também abordou a recente lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que prevê uma indenização de R$ 500 mil para as atletas que representaram o Brasil entre 1988 e 1991. Para as pioneiras, o benefício é visto como uma reparação tardia, mas necessária. Márcia Matos, a Russa, fez questão de destacar o papel fundamental de Marileia dos Santos, a Michel Jackson, que atuou nos bastidores do Ministério do Esporte por oito anos para viabilizar essa conquista.
A emoção tomou conta do estúdio ao discutirem o impacto dessa medida na vida das ex-atletas. Para Caju, a vitória representa um alívio para uma geração que sacrificou muito em nome do esporte. O reconhecimento, embora chegue após 38 anos de espera, traz dignidade e a possibilidade de um descanso merecido para quem abriu as portas para as futuras gerações de jogadoras.
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