A chácara do Seu João das Vacas

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Se existir, o paraíso ali foi o da minha infância.
Seu João das Vacas
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Na época, eu um garoto de apenas cinco anos e aquela chácara um mundaréu de terreno que não tinha mais fim, onde eu, se sozinho, poderia me perder com facilidade e nunca mais ser encontrado.

Hoje lá existe uma pequena vila residencial de não mais que um alqueire e a grande maioria de seus moradores nem sabe que ali foi o paraíso.

Cortada de ponta a ponta por um córrego de águas cristalinas que serpenteava por entre os eucaliptos e as árvores frutíferas e que, em determinados pontos, ampliava-se formando singelos lagos. Nestes lagos, a garotada e principalmente eu e o meu amigo Giba demos os nossos primeiros mergulhos e primeiras braçadas desengonçadas ao que dizíamos estar nadando.

Bater peneira ou na falta desta bater saco, uma forma de pesca em que no riacho com a peneira ou com o saco de estopa, raspávamos o fundo em direção as bordas e levantávamos nossos instrumentos até a flor d’água por debaixo das ramadas e delirávamos com os guarus, lambaris, pequenos carás e muitos girinos.

O pé de caqui chocolate, daqueles legítimos, que mesmo verdes por fora eram marrons por dentro.  Ali ficava nossa torre de observação, pois do alto de seus galhos podíamos ver a chácara toda, inclusive a casa do Seu João, e ao menor sinal da saída do velho de dentro da casa nós já dávamos o alerta, pois ele andava sempre com uma espingarda velha carregada com sal e prometia atirar na garotada que roubava suas frutas.

Seu João criava umas 10 vacas-leiteiras e diariamente, com uma longa vara e acompanhado por seus cachorros, percorria todas as ruas da Vila Corberi tocando as vacas com seus bezerros aos pés e vendendo leite tirado na hora.

Um dia ele nos pegou roubando, ou melhor, colhendo suas peras sem autorização. Não deu tempo de fugir nem mesmo de descer da pereira. Seu João com a espingarda na mão ameaçando a mim e ao Clóvis. Ficamos tão assustados que deixamos cair todas as peras e prometemos a ele que nunca mais iríamos apanhar suas frutas. Ele falou que contaria até cem para que nós descêssemos da árvore e sumíssemos de sua frente, pois a partir dos cem atiraria na gente. Provavelmente antes de ele contar até vinte já estávamos em casa.

Ali montei as minhas primeiras cabanas de índio armadas com varas de cana do reino e trançadas com folhas de taboa e dentro delas muita conversa de moleque e plano para grandes aventuras produzidas por nossa fértil e pura imaginação.

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Já moleques mais velhos beirando a fase dos doze anos lá era o esconderijo onde amarrávamos os cavalos das olarias que fugiam e apareciam na redondeza e desta forma garantíamos montaria para nos aventurar em passeios e explorações mais distantes montados a pelo.

Construímos armadilhas para pegar lobisomem, laços para pegar pássaros, caçamos muitos preás com ajuda de nossos fiéis cachorros vira-latas. Brincamos de índio e mocinho, tiramos guerra de estilingues com mamonas até que um dia fomos interrompidos pelo ruidoso barulho de um motor gigante que mais parecia um destes monstros de filmes japoneses. Um monstro devorador de árvores, arbustos, riachos, cabanas,  armadilhas e sonhos.

A chácara foi planada, loteada e, sem nosso consentimento, destruíram o quintal de nossa infância. Tentamos protestar e, por algum tempo durante a noite, destruíamos as pequenas paredes que começavam a ser erguidas, porém, no dia seguinte, lá estavam elas novamente brotando do chão, regadas pela energia das águas cristalinas de nosso córrego que hoje corre apenas em minhas lembranças.

 

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