A decisão de mandar prender o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi o estopim para uma crise política dentro do Congresso Nacional. Depois que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, decretou a prisão domiciliar do ex-presidente nesta segunda-feira (4), deputados e senadores que apoiam Bolsonaro ocuparam as mesas do Senado e da Câmara em impediram que qualquer votação fosse realizada.
O protesto durou mais de 30 horas e, praticamente, impediu o andamento dos trabalhos e atividades que estavam programadas para esta semana. Com isso, muitas audiências públicas e sessões nas comissões das Casas foram canceladas.
Os deputados e senadores tomaram de tal iniciativa para reivindicar que algumas pautas de interesse dos partidos de direita e centro-direita sejam colocadas em votação, tanto na Câmara quanto no Senado.
Entre as matérias que eles querem que sejam apreciadas, está o projeto de lei que pede anistia aos presos em decorrência do dia 8 de janeiro de 2023, o projeto que pede o fim do foro privilegiado. Além da apreciação do impeachment do ministro Alexandre de Moraes.
Ontem, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), conseguiu presidir a sessão depois de ter que ficar quase 6 minutos tentando romper o cerco feito por deputados que o impediam de chegar à Mesa Diretora.
Sob gritos de “anistia já” e “sem anistia”, o presidente, já sentado em sua cadeira, fez um discurso por cerca de dez minutos. Entre os pontos destacados por Motta, estava a descrição dos tempos políticos que o país enfrenta.
“Nós tivemos um somatório de acontecimentos recentes que nos trouxeram a esse sentimento de ebulição. É comum? Não? Estamos vivendo tempos normais? Também não. Mas é justamente nessa hora que nós não podemos negociar a nossa democracia”, disse Motta.
Ele ressaltou ainda que o “país tem que estar sempre em primeiro lugar” e que “projetos individuais” não podem estar à frente do povo. “O que aconteceu nesta Casa não foi bom, não foi condizente com nossa história. […] O que aconteceu ontem e hoje não pode ser maior do que o plenário”, resumiu.
“O Brasil não está normal”
A disputa continua acirrada entre os apoiadores de Bolsonaro e seus oposicionistas. Para quem percorreu os corredores do Congresso, nesta quarta-feira (6), por exemplo, pode sentir o clima tenso que havia entre os parlamentares. O mesmo ocorreu dentro das comissões, onde vários bate-boca foram realizados seja em defesa do ex-presidente ou contrário a ele.

Um dos deputados federais que se posicionou a favor de Jair Bolsonaro foi o deputado Marco Feliciano (PL-SP), que gravou um vídeo dizendo que estava em “oposição” às atividades do Congresso.
“Estamos aqui fazendo aquilo que é possível. Afinal de contas, o Parlamento brasileiro parece que perdeu o seu brilhantismo. E aí, nós só podemos contar, neste momento, com atitudes desta forma: uma guerrilha”, afirmou o deputado.
Feliciano disse que a medidas adotadas pelo ministro Alexandre de Moraes contra Jair Bolsonaro é uma afronta não só contra o ex-presidente, mas também contra toda oposição.
“Até porque calaram o Bolsonaro, não apenas com a tornozeleira, como também prenderam ele na sua casa. Então calaram a gente. E querem prender o parlamento”, diz. “Nós precisamos de liberdade. O Brasil não está normal”, completa o deputado.
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“Grande circo”

A deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) também se posicionou sobre a obstrução dos trabalhos no Congresso e disse que tudo não passa de um “circo” e que impedir as atividades parlamentares no momento em que o Brasil está sendo “ameaçado” por outro país – uma referência ao tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – prejudica ainda mais a sociedade.
Logo depois que o presidente Hugo Motta reiniciou os trabalhos na Câmara, a deputada gravou um vídeo dizendo que o ocorrido na Casa mostra que é momento de ter “união” entre os partidos em prol do país.
“O que aconteceu aqui foi feio, foi vergonhoso, e ninguém ganhou. Quem perdeu com toda clareza, foi todo o povo brasileiro”, disse Tabata.
A deputada ressaltou ainda que muita gente viu o que estava acontecendo e que os parlamentares que estavam obstruindo os trabalhos se achavam na condição de fazer do Congresso um “grande circo”, uma vez que os deputados usaram esparadrapos nas bocas para simbolizar que estavam sendo censurados pelo STF.
“Ao invés de usarem a obstrução que está no regimento, de usarem da palavra, impediram que a sessão começasse. Ocuparam, de maneira ridícula, a Mesa da Câmara dos Deputados. Fizeram igual criança pequena, que quando perde uma partida, e não sabe lidar com isso, sai correndo com a bola”, afirmou.
Por fim, a deputada disse que ao invés de Brasil demostrar para o Trump que é um país sério, e que está unido na defesa de seus interesses, se apresenta juntamente como uma país desunido. “É a imagem de um país que está enfraquecido, de um país que pode ser atacado, porque não consegue se unir nem para responder a isso [ao tarifaço]”, afirmou.
Senado
No Senado, o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP) anunciou no início da noite que realizará sessão virtual nesta quinta-feira (7).
“Não aceitarei intimidações nem tentativas de constrangimento à presidência do Senado. O Parlamento não será refém de ações que visem desestabilizar seu funcionamento”, afirmou.




