Era ali, naqueles campos de terra batida, que os trabalhadores buscavam renovar suas energias nos finais de semana, praticando o único esporte disponível — principalmente à população mais pobre.

Ir ao campo num domingo, fosse para jogar ou simplesmente para a resenha com os amigos, era algo sagrado. Assistir ao time da comunidade enfrentar um clube visitante, com direito a preliminar e principal, garantia o lazer do fim de semana.

As crianças aproveitavam os campos durante a semana, antes ou depois da escola, para todo tipo de brincadeira — desde as peladas entre a rua de baixo contra a rua de cima, até empinar pipas, jogar bolinhas de gude, rodar pião, brincar de taco ou apenas se reunir para contar suas aventuras e soltar a imaginação.

Itaquera, como todo bairro de periferia, tinha vários campos de futebol — especialmente às margens de seus córregos e rios, como o Rio Jacu e o Rio Verde. Esses campos davam nome popular às vilas e ajudavam na referência geográfica: “Ele mora lá no Democrático” ou “Ela nasceu no Falcão do Morro”. A ligação entre o time da vila e a comunidade era tão forte que estabelecia um vínculo social quase familiar.

Destacam-se alguns campos em suas respectivas vilas:
– Na Vila Carmozina, o lendário campo do Relâmpago, do União, do Tricolor de Justino e Paxa, do própro Carmozina.
– Na Líder, celeiro de craques como Serginho — um dos melhores meias da história de Itaquera — havia os campos do Líder, Bola Veloz, Montepino, Paraíba e do Santa Terezinha de Sião e lebrão entre outros.
– Na Vila Corberi, destaca-se até hoje o resistente campo do Falcão do Morro, que além do futebol brindava a comunidade com sua escola de samba comandada pelo saudoso mestre Zulu e mestre Cobrinha. Ali também havia o campo do Figueirinha, ao lado de uma figueira secular (origem do nome do time), e o Florestinha, ao lado do Calipal, onde hoje está a Comunidade da Paz.
– Às margens do Rio Verde, destacava-se o campo do Democrático, hoje o Parque Linear do Rio Verde. Lá surgiram craques como Miltinho, João Maria, Décio, Neno, Silvão. Também jogou ali o renomado time do Ferrolho, comandado por Dinho Gordo. Pouco antes, havia o campo do Ita, entre a estrada de Itaquera e o Córrego do Rio Verde.
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– Na Vila Campanela, existia o campo do Botafogo, cercado por moitas de urtiga — planta que, ao toque, provocava queimadura intensa. Os garotos locais costumavam pregar peças nos visitantes, convidando-os a pular nas touceiras verdes. O campo ficava onde hoje está o Grupo Escolar Santa Adelaide.
– Na Vila Jacu, o coração do futebol de várzea de Itaquera estava os campos do Olaria e do Elite. O Olaria comandado pelas famílias Espação e Gianetti, donas da Olaria 88, produtora do melhor tijolo de barro do país à época. Lá, a comunidade japonesa promovia o tradicional Undokai, um festival de gincanas infantis no Dia do Trabalho. Já o Elite, vizinho à piscina do Leard (hoje Parque Mariza), era o mais destacado da Zona Leste, com jogos lendários como Elite x Montepio, Montepino x Santa Cruz de Guaianazes, Olaria x Falcão do Morro — embates memoráveis assistidos do barrancão ou à beira da linha da Central do Brasil.
– Ainda na região da Jacu, havia (e ainda há) o campo do Morganti, e mais acima, após o Planalto, o campo do Vila Brasil, que revelou jogadores como José Carlos Garrafa e Tataiá e o saudoso campo do Palmeirinhas ao lado do Rio Jacu depois do Campo do Olaria. Nesta região não podemos deixar de mencionar os times do Carquejo, que distribuía doses de pinga com Carqueijo durante seus jogos e do Leão do Morro.
– Do outro lado da linha do trem, havia os campos do Itapemirim e do Vila Regina. Mas quem mais se destacava era o campo da Vila Santana, sucessor do Itaquera Futebol Clube — tão antigo quanto o Elite. O Santana permanece firme à esquerda do Rio Jacu e sempre teve dirigentes da Família Roudan, como Amauri, Chinito e Alemão. Jogar contra eles, com Amauri apitando, era quase garantia de derrota — mesmo que a partida invadisse a noite sem iluminação, até o Santana marcar. Ali do outro lado da Linha existiu um dos mais importantes campos de futebol de Itaquera, onde eram realizados os maiores torneios de futebol da região, o campo da NIFE , o único campo gramado da época pertencente à fábrica de mesmo nome que produzia baterias especiais para navios. A NIFE também tinha um ótimo time de onde saíram muitos craques, até mesmo para o futebol profissional como foi o caso de Gesse que jogou no São Paulo e Lauro que jogou no Juventus.
Vou parar por aqui, pois cada um desses maravilhosos times e campos merece um capítulo próprio. Hoje restam poucos campos. A exploração imobiliária desenfreada, além da grilagem e invasão de terras, tomou conta dos espaços. Os poucos campos sobreviventes contam com infraestrutura e gramado sintético. Houve evolução, sem dúvida — mas perderam o glamour dos campos de várzea do nosso passado.




