Na época dos grandes Circos

PUBLICIDADE
Ouvíamos ao longe o som da banda e logo perfilávamos ao longo da rua, ainda de terra batida, à espera do desfile dos astros.
Circo
PUBLICIDADE

O homem de perna de pau, os anões, os palhaços, a banda e o que mais queríamos ver: os animais, capitaneados pelo rei Leão e o gigante Elefante.

Era o Circo Stankowich que desfilava pelas ruas de Itaquera anunciando sua chegada para mais uma temporada.

O circo, como em todos os anos, era armado no campo do Elite, ali onde meu amigo Cebolinha derrubou o helicóptero com uma pedrada e hoje está de forma permanente o Parque Mariza.

Na época, as grandes atrações do circo eram os animais selvagens, e circo que prestava tinha que ter leões, elefantes, ursos, tigres. O domador juntamente com o casal de trapezistas e o piloto da moto do globo da morte, eram os principais astros do espetáculo.

Pois bem, um dos canais de marketing do circo era a entrega nas escolas do bairro de um convite para cada criança assistir à primeira sessão. É claro que o convite era só para a criança, os pais teriam que pagar.

Naquele dia, recebemos na classe os convites e mal podíamos esperar o final da aula, pois seria certo cortar caminho no retorno para casa e andar mais um pouco para passar no circo e ver os animais.

Tocou o sino de fim de aula e lá fomos nós em disparada até o campo do Elite. À distância, o cheiro inconfundível dos animais já denunciava a presença das feras naquele local. Os bichos estavam quietos. O elefante acorrentado por um dos pés a uma tora enterrada firmemente no gramado. O leão cochichava e mal abria os olhos, demonstrando um grande cansaço pela viagem e o tédio de passar a vida naquela jaula fétida de não mais que 4 metros quadrados, já nem ligava para as moscas. O tigre andava (bem, virava-se) de um lado para outro, também dentro de sua diminuta jaula.

As crianças boquiabertas admiravam as feras, e ao meu lado estava o Tampinha, apelido do Elvélcio, pois era um garoto de estatura bem menor que a dos demais de sua idade, porém maior que todos quando se tratava de aprontar alguma.

Fomos então, por fim, visitar o animal de menor prestígio, o Urso Pardo, que estava bastante ativo em sua jaula, excitado pelo agito da garotada.

Ao chegarmos perto da jaula do Urso (mais tarde vim saber que era um urso fêmea), o Tampinha, sem qualquer explicação ou motivo, me empurrou de encontro à jaula. O animal não teve dúvidas e agarrou meu braço, puxando-o contra as grades. Por sorte, o tratador estava ao lado e cutucou o animal com um gancho de servir alimento aos bichos.

Dois cortes superficiais e um furo profundo até o osso foram o resultado do ataque. Muito sangue e, para mim, o pior, meu agasalho novo rasgado, o que seria motivo para levar uma surra de minha mãe.

Fomos direto para a farmácia do Seu Barreiros, que limpou bem os ferimentos e deu um ponto de latinha no furo maior. Depois de uma injeção antitetânica que doeu mais que a patada do urso, fui conduzido para casa pelo administrador do circo.

Ganhamos uma permanente para assistir a todos os espetáculos de graça no camarote.

Tampinha continua lá em Itaquera e todo final de semana eu o vejo com seu carrinho de amolar facas ostentando o sorriso de um único dente, o canino esquerdo inferior, que me faz lembrar a presa de um urso.

Hoje, felizmente, já existe uma maior conscientização sobre a proteção dos animais e a prática de exibi-los em circo ou outro espetáculo está legalmente proibida em vários países, inclusive no Brasil.

Já não vejo mais circos itinerantes e mambembes em caravanas, armando seus palcos nos terrenos baldios e nos campos de futebol da várzea, onde o palhaço e os demais artistas possam exibir sua arte para um público simples que, boquiaberto, assistirem ao maior espetáculo da Terra.

Curiosidades:

  • De origem romena, o Circo Stankowich mantém uma tradição de mais de um século na qual a arte circense vem transmitida de geração para geração.

No ano de 1850, Pedro Stankowich e sua família chegam na América do Sul, fugindo da primeira guerra que acontecia naquele momento na Europa.

Mais 155 anos de muito trabalho e dedicação ao ofício de circense. São 6 gerações empenhadas em manter viva a tradição do Circo Stankowich, a companhia mais antiga do Brasil. O amor pelo circo é um mistério para quem nunca viveu a sensação mágica de subir num picadeiro, uma incógnita para quem pretende decifrar o olhar satisfeito de um artista quando realiza seu número.

  • O Anão do circo em Itaquera nestas ocasiões era o Gilberto, um garoto portador de Nanismo nascido em Itaquera, mas que somente atuava junto aos palhaços quando o circo estava no bairro, ele nunca quis viajar com o circo.

 

  • Dizem as más línguas de alguns fofoqueiros de Itaquera, sem que o fato tenha sido provado, que teve uma jovem Itaquerense muito linda de família tradicional, fugiu de casa para viajar com o circo na companhia do Galã do trapézio.

 

Se você tem alguma lembrança ou histórias do Circo, compartilhe nos comentários para tornar esta coluna mais interativa.

LEIA TAMBÉM: Educandário Divina Providência – Conhecido popularmente pelos moradores do bairro como COLÉGIO DAS FREIRAS. – Fato Paulista

 

 

PUBLICIDADE
Itaquera

Deixe um Comentário