A rotina da construção civil, marcada pelo esforço físico e pela precisão técnica, tornou-se palco de um debate sobre as exigências do mercado de trabalho atual. José María, um profissional de 64 anos com quase cinco décadas de experiência no setor, viralizou ao expor uma contradição que encontrou em um processo seletivo na Espanha: a exigência de fluência em inglês para uma função operacional. Ao ser questionado sobre o requisito, o pedreiro respondeu com ironia: “Não sabia que tinha que falar inglês com os tijolos”.
O episódio, que ocorreu recentemente, ilustra o descompasso entre as necessidades reais dos canteiros de obras e os critérios adotados por departamentos de recursos humanos. Para um profissional que dedicou a vida a levantar paredes, interpretar projetos e gerenciar argamassas, a exigência de um segundo idioma soou como um obstáculo desconectado da realidade prática da profissão.
O abismo geracional na construção civil
O desabafo de José María reflete um cenário preocupante para a indústria da construção na Espanha. Dados do setor indicam que a força de trabalho está envelhecendo rapidamente: apenas um em cada dez trabalhadores possui menos de 30 anos, enquanto cerca de 25% da mão de obra já ultrapassou os 55 anos. A estimativa é que mais de 139 mil profissionais se aposentem nos próximos cinco anos, criando um vácuo de conhecimento técnico difícil de preencher.
No canteiro de obras onde José María atua, em Madri, a realidade é nítida. O pedreiro relata que, entre os colegas, há apenas um jovem de 28 anos, enquanto a maioria dos operários já passou da marca dos 50. Esse desequilíbrio gera um problema estrutural: a falta de renovação dos quadros, somada à dificuldade das empresas em atrair novos talentos para funções que, embora essenciais, são fisicamente desgastantes.
Desafios salariais e a falta de atratividade
A escassez de mão de obra jovem não é um fenômeno isolado, mas uma consequência direta da desvalorização da carreira. Segundo José María, o salário inicial é o principal fator de rejeição entre os mais novos. Embora o setor tenha registrado um salário médio anual de 28.567 euros em 2026, os valores oferecidos a ajudantes iniciantes, que giram em torno de 1.300 euros mensais em 14 pagamentos, são considerados insuficientes diante da carga de trabalho exigida.
O veterano compara seu poder de compra atual com o início de sua trajetória, há quase 50 anos. Para ele, a remuneração não acompanhou a inflação e o custo de vida, tornando o ofício menos atrativo para as novas gerações. Essa percepção é corroborada por especialistas que apontam a necessidade de melhores condições e valorização da experiência prática para atrair jovens ao setor.
A desconexão entre currículos e canteiros
Embora o domínio de idiomas seja uma ferramenta valiosa em contextos de internacionalização ou em equipes multiculturais, sua aplicação como filtro de contratação para funções operacionais básicas é vista como um erro estratégico. A experiência acumulada em décadas de prática — como o domínio sobre o comportamento dos materiais e a resolução de problemas estruturais — muitas vezes é preterida em favor de critérios acadêmicos ou linguísticos que pouco agregam ao dia a dia da obra.
O caso de José María serve como um alerta para as empresas do setor. Ao exigir competências que não condizem com a função, o mercado acaba por afastar profissionais qualificados e experientes, agravando a crise de mão de obra. A frase sobre “falar inglês com os tijolos” tornou-se, portanto, um símbolo da frustração de uma geração que vê seu saber técnico ser subestimado por processos seletivos burocratizados.
O Fato Paulista segue acompanhando os desdobramentos do mercado de trabalho e as transformações no setor da construção civil. Continue conosco para entender como a economia e as mudanças sociais impactam a vida dos trabalhadores brasileiros e internacionais, sempre com o compromisso de levar até você uma informação apurada, relevante e contextualizada.




