Aos 19 anos, a mesa-tenista Sofia Kano, natural de São José dos Campos, no interior paulista, carrega em sua raquete e sobrenome uma história de paixão pelo esporte que começou cedo. Desde os cinco anos de idade, o tênis de mesa se tornou parte de sua rotina, impulsionado pela observação das mesas escolares e pelo incentivo dos pais, que a matricularam em uma escolinha junto com seu irmão mais velho. Essa jornada precoce pavimentou o caminho para uma carreira promissora, marcada pela dedicação e por uma inspiração familiar de peso.
Além do talento natural e da disciplina, Sofia Kano é movida por uma motivação especial: o legado de seu primo de segundo grau, Claudio Kano. Considerado um dos maiores e mais influentes mesa-tenistas da história do Brasil, Claudio popularizou a modalidade no país durante as décadas de 1980 e 1990. Canhoto e com empunhadura estilo caneta, ele se destacava internacionalmente por sua habilidade excepcional nos saques e pelo domínio técnico do movimento conhecido como shoto, um bloqueio de backhand.
A inspiração de um legado histórico no tênis de mesa
A Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM) registra a impressionante trajetória de Claudio Kano, que conquistou 12 medalhas em Jogos Pan-Americanos, sendo sete de ouro, uma de prata e quatro de bronze. Sua performance internacional incluiu um sexto lugar na Copa do Mundo em Macau (1987) e Nairóbi (1989), além de ter alcançado as oitavas de final no Campeonato Mundial em Nova Déli (1987), um feito que permaneceu como a melhor marca brasileira em mundiais por décadas. Ele também representou o Brasil em duas edições olímpicas: Seul (1988) e Barcelona (1992). Mais detalhes sobre a carreira de Claudio Kano podem ser encontrados em reportagens da Agência Brasil.
Sofia não teve a oportunidade de conhecer o primo, cuja carreira foi tragicamente interrompida em 1º de julho de 1996, aos 30 anos, após um acidente de moto em São Paulo, um dia antes de embarcar para os Jogos Olímpicos de Atlanta. No entanto, a memória e as conquistas de Claudio são a principal inspiração da jovem atleta. Em um dia que marca 30 anos da morte do ídolo, Sofia revela que guarda consigo um amuleto do primo, presenteado pela mãe dele, que continua a apoiar sua carreira. “Claro que me inspiro em outros atletas, mas principalmente no Claudio. Quero honrar o nome da minha família. É uma coisa muito boa para mim”, afirmou Sofia.
Da base paulista ao cenário nacional de destaque
Os primeiros passos competitivos de Sofia Kano foram dados na Liga Vale, na região do Vale do Paraíba, interior paulista, e no Campeonato Paulista, onde representava São José dos Campos. O ponto de virada em sua trajetória ocorreu a partir de 2018, quando a mesa-tenista passou a treinar em Jacareí, também no Vale do Paraíba. Foi nesse período que ela começou a se destacar nacionalmente, acumulando convocações para seletivas e treinamentos da seleção de base.
Em Jacareí, Sofia conquistou diversos títulos nacionais e foi condecorada como a melhor atleta do ano em sua categoria por cerca de três anos. Em 2021, aos 14 anos, ela venceu a seletiva nacional Sub-15, garantindo uma vaga para o Campeonato Pan-Americano da categoria. A experiência internacional, contudo, foi marcada pelas restrições impostas pela pandemia de covid-19. Sem a realização prévia do Campeonato Sul-Americano, cancelado na época, as atletas enfrentaram um protocolo rígido de testes. Devido ao diagnóstico positivo de sua parceira, Sofia foi impedida de disputar a categoria de duplas, mas avaliou a oportunidade de estar entre as melhores como um aprendizado fundamental para seu desenvolvimento.
Busca por alto rendimento e horizontes internacionais
Em uma decisão estratégica para impulsionar sua carreira e buscar o alto rendimento, a mesa-tenista Sofia Kano mudou-se para o Rio Grande do Sul em 2023, onde passou a treinar na Sogipa. A escolha foi motivada pela oportunidade de trabalhar com o técnico Jorge Fanck, um profissional com vasta experiência internacional e que também atuava como técnico da seleção feminina adulta. Atualmente, Sofia está entre as atletas cotadas para futuras convocações da confederação nacional, cujo sistema de seleção varia a cada campeonato.
A mudança representou um grande desafio e uma aposta na evolução. “Ele entrega a vida para o esporte, faz o trabalho dele sem esperar nada em troca e consegue colocar em prática tudo o que aprendeu em anos de tênis de mesa. No ano passado, treinei um período na França e peguei algumas competições na Eslovênia. Foi uma experiência muito boa”, relatou a atleta sobre a parceria com Fanck e suas primeiras vivências no exterior. O técnico Jorge Fanck elogia a dedicação de Sofia, destacando a coragem da atleta em mudar de cidade e metodologia de trabalho. “Ela fez uma grande mudança na vida dela, arriscou bastante se mudando para o Rio Grande do Sul para trabalhar na Sogipa, trabalhar comigo. Já são quase quatro anos e ela teve muita coragem, porque mudou o ambiente, mudou parceiros de treino e mudou muito a metodologia de trabalho”, avaliou o treinador.
Segundo Fanck, o jogo de Sofia foi praticamente reconstruído, e os resultados já começam a aparecer. “Hoje ela é a atual campeã brasileira sub-21. Ela está entre as melhores do Absoluto A, entre as melhores do Rating, que é uma divisão onde tem todas as meninas do Brasil pela pontuação. Acredito que, se ela seguir com essa dedicação diária, a longo prazo ela vai ter totais condições de estar nesse grupo seleto de atletas que defendem o Brasil nas principais competições do mundo”, projetou o técnico, reforçando o objetivo de Sofia em conseguir espaço na seleção adulta e convocações para campeonatos maiores.
Rotina de atleta e o sonho olímpico de Sofia Kano
Para sustentar o sonho de viver do tênis de mesa, jogar em um clube estruturado e disputar grandes torneios internacionais, Sofia mantém uma rotina disciplinada. Ela concilia os intensos treinos com a faculdade de Educação Física, que cursa de forma online para garantir a flexibilidade necessária para as viagens e competições. “Normalmente eu faço um treino físico de uma hora pela manhã. O treino técnico, na mesa, dura entre quatro e cinco horas por dia, principalmente no período da tarde, das 16h às 19h30. Frequentemente eu acabo me estendendo até as 20h30 ou 21h30. Como eu já treino desde criança, essa rotina é natural para mim, não é um sacrifício tão grande”, detalhou a atleta sobre seu dia a dia.
O maior objetivo de Sofia é disputar as Olimpíadas, embora ela reconheça que a participação em Los Angeles, em 2028, seja um desafio. Mesmo com a dificuldade do processo seletivo, que classifica apenas quatro atletas por edição, ela enxerga o objetivo como palpável para as próximas edições. Além das conquistas pessoais, Sofia almeja inspirar novas gerações e contribuir para a popularização do esporte no Brasil. “Quero continuar fazendo o tênis de mesa brasileiro crescer e mostrar que o esporte pode contribuir muito para a vida de qualquer pessoa, seja ela um atleta profissional ou não”, concluiu a mesa-tenista, reiterando seu compromisso com o desenvolvimento da modalidade.
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