A disparidade salarial entre homens e mulheres ainda é um desafio estrutural no mercado de trabalho brasileiro, mas um novo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela nuances importantes sobre como diferentes setores lidam com essa questão. De acordo com os dados divulgados nesta quinta-feira (25), as entidades sem fins lucrativos destacam-se por apresentar a menor diferença de remuneração entre os gêneros, superando o desempenho tanto do setor privado tradicional quanto da administração pública.
O estudo, baseado no Cadastro Central de Empresas (Cempre), analisou o cenário de 2024, quando o país contava com 10,6 milhões de organizações ativas. Na média geral, o salário dos homens era 16,6% superior ao das mulheres, com elas recebendo o equivalente a 85,8% da remuneração masculina. No entanto, ao segmentar os dados por natureza jurídica, o cenário se torna mais heterogêneo e revela que o ambiente organizacional influencia diretamente a equidade de ganhos.
O papel das entidades sem fins lucrativos na equidade
Nas entidades sem fins lucrativos — categoria que abrange organizações sociais, fundações privadas, sindicatos e condomínios —, a disparidade é significativamente menor. Nestes locais, as mulheres recebem, em média, 95,3% da remuneração dos homens. Enquanto os homens auferem cerca de R$ 3.768,81, a média feminina é de R$ 3.589,82.
Caroline Santos, gerente de Análise e Disseminação do IBGE, aponta que o fenômeno pode estar atrelado à natureza das atividades desenvolvidas. Muitas dessas instituições atuam fortemente em áreas de assistência social e saúde, setores historicamente com maior presença feminina. A pesquisadora sugere que a cultura organizacional dessas entidades, voltada ao serviço social, pode promover uma política de cargos mais igualitária, embora ressalte que o tema demanda estudos mais aprofundados para conclusões definitivas.
Desafios persistentes no setor privado e público
Em contrapartida, o setor empresarial privado apresenta o cenário mais crítico. Nas empresas, a remuneração das mulheres equivale a apenas 78,1% do salário dos homens. Na administração pública, que engloba os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário nas três esferas de governo, o índice é de 82%. Nesses setores, a disparidade é frequentemente alimentada por fatores estruturais, como a menor ocupação de cargos de liderança por mulheres e as interrupções na carreira decorrentes da maternidade.
Apesar da existência da Lei 14.611, sancionada em julho de 2023, que estabelece a obrigatoriedade de salários iguais para homens e mulheres na mesma função, a média salarial ainda reflete desigualdades históricas. A legislação é um passo fundamental, mas a mudança real depende de transformações culturais profundas nas corporações e no setor público.
Panorama do mercado de trabalho brasileiro
O levantamento do IBGE também oferece um raio-x do mercado de trabalho nacional. Em 2024, o país registrava 68 milhões de pessoas ocupadas em 10,6 milhões de CNPJs ativos. Esse universo é composto majoritariamente por 9,5 milhões de empresas, seguidas por 1,1 milhão de entidades sem fins lucrativos e 59,4 mil instituições da administração pública.
Desde 2022, quando a série histórica foi iniciada sob a atual metodologia, houve um crescimento de 12,5% no número de organizações e de 8,4% no total de pessoas ocupadas. Esses números demonstram uma expansão contínua do mercado, mas reforçam a necessidade de monitoramento constante sobre a qualidade e a equidade das vagas geradas.
O Fato Paulista segue acompanhando os indicadores econômicos e sociais que impactam a vida dos brasileiros. Continue conosco para entender os desdobramentos das políticas de igualdade e os movimentos do mercado de trabalho, sempre com a profundidade e a credibilidade que você exige.




