O que antes parecia um enredo de ficção científica está cada vez mais próximo da realidade: um relógio inteligente capaz de identificar estados de ansiedade e estresse no usuário antes mesmo que ele próprio perceba. Essa inovação tecnológica, que promete revolucionar o monitoramento da saúde mental, é fruto de um trabalho colaborativo do Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) Viva Bem: inteligência artificial para saúde e bem-estar, uma iniciativa financiada pela Fapesp e pela Samsung na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Pesquisadores vinculados ao Viva Bem desenvolveram um software de inteligência artificial com uma impressionante precisão de mais de 80% na identificação de estados de ansiedade. O sistema opera a partir da análise de sinais corporais captados continuamente por smartwatches, marcando um avanço significativo na aplicação da tecnologia vestível para o bem-estar humano.
Tecnologia de ponta para monitoramento proativo
Os resultados preliminares e o progresso do projeto foram apresentados por Anderson Rocha, professor da Unicamp e coordenador do CPA, durante a FAPESP Week Londres, evento que reuniu a comunidade científica na capital britânica entre 2 e 4 de junho. A tecnologia em questão integra e analisa, de forma contínua, dois tipos cruciais de dados coletados pelo relógio: o eletrocardiograma (ECG), que registra a atividade elétrica do coração, e a acelerometria, que mapeia os movimentos do braço ao longo do dia.
Esses sinais combinados formam o que os cientistas denominam de “assinatura de dados” do usuário. Trata-se de um padrão individualizado que a inteligência artificial é treinada para reconhecer e monitorar. Conforme explicou Rocha à Agência FAPESP, a equipe já publicou uma técnica inicial e está agora aprimorando uma nova versão, atualmente em fase de avaliação pela Samsung, parceira responsável pelo hardware dos dispositivos.
Metodologia rigorosa no treinamento da IA
Para que os algoritmos pudessem distinguir com precisão o estado de repouso do estado ansioso, a equipe de pesquisa desenvolveu protocolos clínicos específicos. Esses protocolos permitem induzir o estresse de maneira controlada, criando cenários que simulam situações cotidianas de pressão. Em um dos testes, por exemplo, os participantes são desafiados a realizar cálculos mentais complexos, como multiplicar 309 por 17 em apenas 30 segundos, enquanto observam uma contagem regressiva no próprio relógio.
“Inevitavelmente as pessoas ficam ansiosas nessa situação”, detalha Anderson Rocha. “Medimos como o corpo delas está respondendo a esse exercício e treinamos os algoritmos para identificar isso.” Essa abordagem sistemática é fundamental para refinar a capacidade da IA de reconhecer padrões fisiológicos associados à ansiedade e ao estresse, garantindo a alta precisão do software.
Um alerta inteligente para a saúde e bem-estar
É crucial ressaltar que a aplicação desenvolvida não tem a intenção de substituir o papel de médicos ou psicólogos. A proposta central do projeto é estabelecer uma camada de monitoramento proativo. Caso o relógio inteligente detecte episódios ansiosos recorrentes, ele emitirá um alerta, recomendando que o usuário procure a orientação de um especialista. “A ideia não é fazer o diagnóstico, mas ser uma ferramenta de alerta”, enfatiza Rocha, sublinhando a função de sentinela silenciosa da tecnologia.
Essa mesma lógica se estende a outras condições de saúde que o projeto Viva Bem monitora, como hipertensão, diabetes, Parkinson e o risco de quedas em idosos. A inteligência artificial atua como um observador constante, fornecendo informações valiosas para que o usuário possa tomar decisões informadas sobre sua saúde, sempre com a autonomia de decidir como proceder com os dados recebidos. O objetivo final é utilizar os sinais captados pelos smartwatches para identificar os primeiros sintomas de diversas condições, contribuindo para uma melhor qualidade de vida.
O futuro da inovação e a confiança na tecnologia
Os resultados do projeto estão em constante avaliação e aprimoramento. Uma vez que a tecnologia seja considerada madura e eficaz, será solicitada a autorização de órgãos reguladores competentes, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para que os testes possam ser expandidos para usuários reais. Este passo é fundamental para a validação e eventual disponibilização da ferramenta ao público.
Além do monitoramento de saúde, o professor Rocha também apresentou o projeto Horus, focado em “realidades sintéticas” – o universo de conteúdos gerados por inteligência artificial. O laboratório já desenvolveu ferramentas para detectar deepfakes, ataques por SMS e WhatsApp, e falsificações em publicações científicas, além de rastrear conteúdos ilícitos. Essa diversidade de atuação reforça a visão do centro de pesquisa, onde saúde e combate à desinformação convergem em um valor essencial: a confiança. “A IA centrada no ser humano é fundamental para fortalecer a resiliência e o bem-estar”, concluiu Rocha, destacando a importância de uma inteligência artificial que sirva verdadeiramente à humanidade.
Acompanhe o Fato Paulista para mais notícias sobre inovações tecnológicas, avanços científicos e temas que impactam diretamente a sua vida e a sociedade. Nosso compromisso é trazer informação relevante, atual e contextualizada, mantendo você sempre bem informado sobre os acontecimentos mais importantes do Brasil e do mundo.




