Por que a inflação oficial é sempre mais baixa do que percebo?

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O leitor deve ter se questionado várias vezes sobre a validade do índice oficial de inflação, IPCA, calculado e divulgado pelo IBGE, que mede os aumentos ou reduções nos preços dos bens e serviços demandados, sobretudo pelas famílias. A questão levantada por você leitor, é: por que a inflação calculada pelo governo parece ser menor do que é na realidade em que vivo? Por que não sinto essa inflação baixa nos meus bolsos quando vou à feira livre ou ao supermercado?
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Comecemos por entender que inflação é um fenômeno econômico, ela acontece quando há aumento geral e constante dos preços e dela resultará na desvalorização do dinheiro. Isso quer dizer que se o preço do tomate, por exemplo, aumentar durante duas semanas e depois voltar ao seu nível, não caracterizará inflação, pois, o aumento não foi constante, ou seja, o preço não aumentou durante muito tempo e não houve aumentos dos preços de outros produtos e serviços. O tomate por si só não gera inflação, mesmo que seu preço aumente duzentos por cento ao longo do tempo, afinal, tomate não é um produto que afeta a estrutura da economia brasileira e se não houver aumento de preços de outros bens e serviços ao longo do tempo, continuadamente, não haverá inflação. O leitor nunca deve se esquecer de que inflação é o aumento geral (de todos os bens e serviços) e constante dos preços.

Isso nos leva a concluir que há produtos e serviços que se sofrerem aumentos significativos de preços durante muito tempo, provocarão inflação, pois podem afetar a estrutura da economia brasileira com mais vigor do que o tomate. Cito como exemplos os combustíveis: gasolina e diesel. O Brasil possui uma matriz de transportes de cargas e passageiros baseada em rodovias, logo, quase tudo o que deve ser transportado consome diesel e gasolina, sendo assim, aumentam os custos de produção em todas as empresas que produzem bens e serviços finais quando gasolina e diesel sofrem aumentos de preços consideráveis. Podemos inserir nessa categoria de produtos e serviços que afetam a estrutura da economia, além do petróleo: energia elétrica, trigo, aço, tarifas dos transportes públicos, remédios e planos de saúde.

A economia internacional também pode afetar os níveis de preços no Brasil e provocar inflação. Por exemplo, se há aumento significativo dos preços do petróleo no mercado internacional, é possível esperar aumentos de preços na gasolina e diesel, porque os importadores (compradores) terão que desembolsar mais dinheiro para comprar esses produtos, avaliados em Dólar.

 

Embora o Brasil seja um grande produtor de petróleo, não temos capacidade considerável de refino no presente, abandonamos essa indústria, assim, diesel e gasolina são importados, ou seja, são comprados no mercado internacional. Logo, esses combustíveis mais caros, ao chegarem ao país, farão crescer os custos de produção de todas as empresas, mesmo daquelas que não têm relações diretas com a economia internacional, pois, o preço do frete nacional será afetado e encarecerá toda a estrutura de transporte rodoviário e o consumidor final de gasolina, nas cidades.

Ainda no âmbito do cenário internacional, mesmo que os preços do petróleo continuem estáveis ao longo do tempo, mas, se houver, por qualquer motivo, uma desvalorização do Real em relação ao Dólar, ou seja, Real perde valor diante do Dólar, também é possível esperar um aumento da inflação, pois, os importadores terão que desembolsar mais Reais para pagarem as compras feitas, que são cotadas em Dólar no mercado exterior.

Petróleo, trigo, soja, fertilizantes, carnes, milho, minério de ferro, entre outros produtos, são mercadorias cujos preços são formados no mercado internacional.

Assim sendo, se há um aumento significativo do trigo no mercado internacional (Bolsa de Mercadorias e Futuros), mesmo que os preços estejam estáveis no Brasil, sofrerão pressões de aumentos. Isso pode acontecer porque os produtores nacionais de trigo tentarão vender mais trigo no mercado externo, pois o preço estará mais convidativo, gerará mais lucro do que vender no mercado nacional.

Para regular e equilibrar o mercado interno, o governo federal institui tributos que podem desestimular a exportação excessiva de trigo, para que o mercado interno não fique desabastecido e provoque crescimento da inflação, afinal, trigo é matéria prima para a indústria alimentícia, se o trigo ficar mais caro, os alimentos industrializados ficarão mais caros ao consumidor final, porque os custos de produção aumentarão.

O leitor também deve considerar que o Brasil é um país de dimensões continentais, com diferenças regionais significativas, tanto na economia, geografia, climatologia e na sociedade, além disso, nossos mercados produtores são formados por poucas e grandes empresas (Oligopólios) que pressionam a formação de preços conforme seus objetivos estratégicos, sem levar em conta os desejos dos consumidores, em outras palavras, a “Lei da Oferta e da Procura” conta muito pouco na formação dos principais preços de mercado, no Brasil.

Portanto, não é tarefa fácil coletar dados em todo o território nacional e calcular índices (médias dos preços) de inflação realistas que nortearão decisões econômicas em todo o país, essa tarefa constitui-se um processo, sendo assim, há falhas eventuais e involuntárias nesse processo.

 

Prof. Carlos Darienzo

Consultor empresarial com 30 anos de experiência de mercado. Professor universitário. Leciona Economia nos cursos de Administração de Empresas e Ciências Contábeis. Especializado em cenários econômicos aplicados ao cotidiano das empresas e consumidores.

Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade São Judas Tadeu. Pós-Graduado (especialização) em Engenharia Econômica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Possui formação complementar nos temas de Econometria (FIPE-USP) e Política Macroeconômica (FGV).

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