Palavras africanas: a essência de dengo, axé e samba no português do Brasil

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Descubra como palavras africanas como dengo, axé e samba enriquecem o português do Brasil, revelando um legado cultural profundo.
© Marcello Casal jr/Agência Brasil
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O cotidiano dos brasileiros é um mosaico cultural e linguístico, onde a influência africana se manifesta de forma profunda e, muitas vezes, imperceptível. Palavras como dengo, axé e samba são apenas a ponta de um iceberg de um vasto vocabulário que enriquece o português falado no Brasil, nomeando desde comidas e sentimentos até elementos culturais e partes do corpo. Essa herança linguística é um testemunho vivo da história e da formação identitária do país, especialmente relevante em datas como o Dia da África, celebrado em 25 de maio, que remete à fundação da Organização da Unidade Africana (OUA) em 1963.

A presença dessas palavras não é meramente lexical; ela reflete uma fusão cultural que permeia a sociedade brasileira, moldando a forma como nos expressamos e percebemos o mundo. Compreender a origem e o significado desses termos é mergulhar na complexa teia de relações que uniram continentes e povos, deixando marcas indeléveis na nossa língua e cultura.

O legado linguístico africano no cotidiano brasileiro

A riqueza do português brasileiro deve muito às línguas africanas, principalmente dos troncos linguísticos banto e iorubá. O babalaô Ivanir dos Santos, pedagogo, pesquisador e doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem sido uma voz importante na defesa dos direitos humanos e no combate ao racismo e à intolerância religiosa, e destaca a presença dessas palavras em nosso dia a dia. Ele aponta como termos de origem africana se inseriram naturalmente na comunicação, tornando-se parte integrante da nossa identidade verbal.

Entre as palavras que ele ressalta, encontramos:

  • Aluá: uma bebida fermentada;
  • Axé: energia, força vital ou uma saudação;
  • Bagunça: sinônimo de desordem ou confusão;
  • Berimbau: o icônico instrumento musical de corda;
  • Bunda: termo para nádegas;
  • Caçula: o filho mais novo da família;
  • Cafuné: um carinho na cabeça;
  • Dengo: manha ou carência;
  • Fubá: a farinha de milho;
  • Moleque: menino;
  • Quitanda: pequeno comércio de hortaliças ou mercado;
  • Samba: o gênero musical e a dança que são símbolos do Brasil;
  • Xodó: pessoa muito querida, ou um forte apego.

Esses exemplos ilustram a diversidade de contextos em que as palavras africanas se enraizaram, mostrando como elas descrevem aspectos fundamentais da vida brasileira, desde a culinária até as relações afetivas e as manifestações artísticas.

A análise filológica e a adaptação do português

O filólogo e linguista brasileiro Ricardo Stavola Cavaliere, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), reforça a amplitude do vocabulário de origem africana no português do Brasil. Ele destaca que essa influência abrange diversas áreas da atividade social. Na culinária, por exemplo, termos como vatapá, dendê, moqueca e farofa são amplamente utilizados. No universo musical, berimbau e cuíca são nomes de instrumentos essenciais. Até mesmo na fauna, palavras como chimpanzé e camundongo têm raízes africanas.

Cavaliere, eleito para a cadeira número 8 da ABL em abril de 2023, explica que, embora muitas dessas palavras mantenham o significado original, algumas sofreram alterações semânticas. O termo “samba” é um exemplo notável, que de um tipo de dança evoluiu para designar um gênero musical completo. Além disso, todas essas palavras passaram por um “ajuste fonético” para se integrar harmoniosamente ao léxico do português.

No âmbito familiar, a presença de palavras africanas é particularmente marcante. Cavaliere cita “dengo” e “caçula” como exemplos que expressam carinho, afeto e a relação com o filho mais novo. Essa inserção no vocabulário doméstico é atribuída à intensa presença de mulheres escravizadas nas atividades do lar a partir do Primeiro Império. A palavra “cafuné”, originária do quimbundo, que descreve o ato de coçar ou acariciar a cabeça, é um reflexo direto dessa relação íntima das mulheres africanas no ambiente das famílias brasileiras do século 19.

As raízes e a diversidade das línguas africanas

A história da chegada dessas palavras ao Brasil está intrinsecamente ligada ao tráfico escravagista. Inicialmente, as línguas que mais contribuíram foram o quimbundo, o umbundo e, em menor grau, o quicongo. Essas línguas chegaram com o grande fluxo de pessoas escravizadas a partir da segunda metade do século 16. A relevância do quimbundo foi tamanha que o padre jesuíta Pedro Dias chegou a escrever uma gramática dessa língua, publicada em 1697, com o objetivo de facilitar o aprendizado pelos padres em missão no Brasil.

A partir do século 18, com a intensificação do tráfico de pessoas escravizadas de etnia iorubá ou nagô, houve um aumento significativo de palavras desse tronco linguístico. Cavaliere destaca que esses termos são frequentes na “língua de santo”, presente nos cultos do candomblé, com exemplos como orixá, babalorixá e Ogum.

O pesquisador angolano Geovany Fernandes-Cattuco, conhecido como Gio Cattuco nas redes sociais, tem se dedicado a valorizar e divulgar a cultura angolana e africana, com foco especial na origem das palavras angolanas adotadas no vocabulário brasileiro. Ele explica que “dengo”, por exemplo, que significa doçura, carinho ou atenção em português, deriva do termo ndengu da língua kikongo. Da mesma língua vem “muvuca”, originária de mvuca, que significa aglomeração.

Da língua kimbundu, diversas palavras foram incorporadas, como “cambada” (de dikamba, amigo ou companheiro), “capanga” (de kubanga, lutar), “babá” (do verbo kubaba, acalentar uma criança), “beleléu” (de mbalale, sepultura) e “caçamba” (de kisambu, cesto grande). Esses exemplos reforçam a profundidade e a abrangência da influência africana, que transcende a mera adição de termos, mas se manifesta na própria estrutura e expressividade do português brasileiro.

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