Geralmente, para uma parcela expressiva da população, o lixo que geramos em nossas casas e depois colocamos na calçada – preferencialmente dentro de um saco resistente e bem amarrado – está na lista de coisas consideradas irrelevantes. O que muita gente não sabe é que a nossa qualidade de vida tem relação direta com a geração de resíduos e o seu descarte correto.
Há quem possa pensar que não vale a pena perder tempo separando materiais que eventualmente podem ser reciclados, pois é bem mais fácil jogar tudo dentro de um saco, deixá-lo na calçada e esperar que “a mágica do sumiço do lixo” aconteça. O problema é que as pessoas que agem dessa maneira estão, a rigor, agindo de forma egoísta, tanto com outros cidadãos quanto consigo mesmo e seus familiares.
O motivo é simples.
Quando o material reciclável recolhido pelos caminhões da coleta seletiva é levado para as cooperativas de catadores, os homens e mulheres que trabalham nessas centrais separando os diferentes itens por tipo, como papel, papelão, garrafa pet, vidro e latas de alumínio, entre outros; têm a oportunidade de ser remunerados pela venda desses produtos e, portanto, colocar comida em suas mesas. Quando os materiais deixam de ir para as cooperativas, esses trabalhadores estão perdendo renda – e, por tabela, deixando de contribuir com o meio ambiente.
Outro ponto. Se a fabricação de novas embalagens, por exemplo, precisa de matéria-prima virgem, o custo final geralmente é mais alto do que se materiais recicláveis forem utilizados no processo fabril. No final das contas, sem sequer imaginar, quem jogou fora as latinhas de alumínio, garrafas pet e sacolinhas plásticas, vai pagar mais caro da próxima vez que comprar sua cerveja, refrigerante e outros produtos, pois a embalagem entra no preço que será cobrado do consumidor.
Trata-se de um fato que os paulistanos ainda reciclam muito pouco. Pouco a pouco, o volume vem crescendo, principalmente por conta de ações de educação ambiental e investimentos em infraestrutura de coleta, triagem e destinação final. Mas, ainda assim, muitos moradores e comerciantes de todos os bairros da cidade não contribuem com a simples ação de separar o lixo seco, composto especialmente de embalagens; do lixo úmido doméstico, como restos de alimentos, bitucas de cigarro, fraldas, absorventes, papel higiênico etc.
Outro problema ao não encaminhar os recicláveis para coleta seletiva é que esses materiais irão para o aterro sanitário, locais onde o espaço é limitado. Em São Paulo, no extremo leste do município, funciona o Aterro Sanitário Central de Tratamento de Resíduos Leste (CTL), que foi construído e é operado pela Ecourbis, a mesma concessionária municipal responsável pela coleta de resíduos domiciliares em mais da metade da cidade, atendendo às zonas sul e leste. Hoje, o CTL recebe mais ou menos 7 mil toneladas de resíduos domiciliares diariamente, de segunda-feira a sábado, e uma boa parte de todo esse volume acaba lá porque muitas pessoas não participam da coleta seletiva.
Daqui alguns anos, quando a operação de recebimento de resíduos no Aterro Sanitário for interrompida, o Poder Público deverá indicar um local para construir um novo aterro, mas, provavelmente, terá que ser em outra cidade, pois não há mais áreas disponíveis em nossa cidade. Inevitavelmente, os custos da prefeitura com os serviços de limpeza urbana aumentarão, pois os resíduos terão que ser transportados até um novo aterro.
E, a propósito de custos, é óbvio que o mais grave desperdício é de dinheiro. Alguns estudos avaliam que, anualmente, aproximadamente 4 milhões de toneladas de plásticos que poderiam ser reciclados vão direto para o lixo em todo o país. Essas 4 milhões de toneladas representam 40% do total de plásticos que são produzidos todos os anos no Brasil, fabricados a partir de matéria-prima virgem.
O Brasil produz mais de 78 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano, dos quais 13,5% – o equivalente a 10,5 milhões de toneladas – são de plástico. Se o total desse montante de plástico fosse reciclado, as estimativas são de que seria possível retornar cerca de R$ 5,7 bilhões para a economia, de acordo com levantamento do Sindicato Nacional das Empresas de Limpeza Urbana (Selurb). Do total de quase 80 milhões de resíduos, cerca de 12 milhões de toneladas poderiam voltar à economia por meio de processos de reciclagem e reaproveitamento de materiais, apontam estudos da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).
O levantamento ainda indica desperdício quase R$ 5 milhões em papel ou papelão, de R$ 1 milhão em vidro e R$ 185 mil em alumínio. O alumínio, por ser bastante valorizado e reciclado em larga escala, atrai mais interesse de catadores, cooperativas e por isso o desperdício é pequeno. O Brasil é um dos
países que mais recicla alumínio, ultrapassando 97% de destinação correta e reciclagem. O exemplo do alumínio indica que é preciso implementar ações em escala, com a indústria ampliando a valorização de outros materiais para que o interesse pela cadeia de recicladores também aumente.
Um passo importante, sem dúvida, é que mais pessoas passem a prestar atenção ao que consomem.




