O desafio da sobrevivência na Mata Atlântica
Uma jovem fêmea de gato-do-mato-pequeno-do-sul, resgatada ainda filhote, protagonizou uma história de superação e conservação ambiental no Vale do Ribeira. Encontrada em janeiro em um galinheiro no município de Cajati, a felina tornou-se órfã após um ataque de cães que forçou sua mãe a fugir, deixando-a desamparada com apenas um mês de vida. O resgate imediato foi o primeiro passo de uma jornada complexa conduzida pelo Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres de Registro (Cetras-Registro), unidade vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil).
Protocolos rigorosos para evitar a domesticação
O maior obstáculo para a equipe técnica, composta por biólogos e médicos-veterinários, foi garantir o desenvolvimento saudável do animal sem que ele criasse vínculos afetivos com humanos. A domesticação é um risco fatal para animais que precisam retornar à vida selvagem. Nos primeiros meses, a alimentação via mamadeira seguiu protocolos estritos de distanciamento, evitando qualquer associação entre a presença humana e a satisfação da fome.
À medida que a felina crescia, o treinamento tornou-se mais sofisticado. A dieta passou a incluir presas abatidas e, posteriormente, presas vivas, estimulando instintos naturais de perseguição e emboscada. O monitoramento foi realizado discretamente por meio de câmeras, permitindo que os especialistas avaliassem a aptidão do animal para a caça e a autodefesa sem interferir no comportamento natural da espécie.
O retorno ao habitat natural
Após quase seis meses de reabilitação intensiva, a gata-do-mato foi devolvida ao seu ambiente de origem: o Parque Estadual do Rio Turvo, em Cajati. O momento da soltura, gerido pela Fundação Florestal, marcou o sucesso de um esforço coletivo voltado à preservação da biodiversidade. Como predadores nativos, esses felinos desempenham um papel crucial no equilíbrio ecológico, controlando populações de pequenos vertebrados e mantendo a saúde do ecossistema da Mata Atlântica.
Hanna Sibuya Kokubun, chefe de departamento do Cetras-Registro, destaca que a soltura é a culminação de um trabalho que exige técnica e paciência. “Ver esse animal retornando à natureza foi a recompensa de um trabalho que exigiu dedicação diária. A soltura simboliza não apenas a recuperação de um indivíduo, mas o fortalecimento dos esforços de conservação da fauna silvestre”, afirma.
Resultados do Cetras-Registro na conservação
Desde sua inauguração em agosto de 2024, o Cetras-Registro consolidou-se como um pilar de proteção à fauna paulista. A unidade já recebeu 1.876 animais, com uma taxa de sucesso que reflete a eficiência dos protocolos de reabilitação. Até o momento, 479 indivíduos concluíram o processo de recuperação, sendo que 62% deles foram devolvidos com sucesso à natureza.
Além do caso da gata-do-mato, o centro tem registrado outras histórias de sucesso, como a de uma preguiça que, após sofrer um atropelamento e passar por amputação, recuperou a capacidade de escalar e retornou à vida livre no Parque Estadual Carlos Botelho. Atualmente, uma jaguatirica também passa por preparação no local, reforçando o compromisso do Estado com a recuperação de animais feridos ou órfãos.
O Fato Paulista segue acompanhando as ações de preservação ambiental e os desdobramentos das políticas de proteção à fauna em todo o estado de São Paulo. Continue conosco para se manter informado sobre as iniciativas que garantem o equilíbrio dos nossos ecossistemas e a proteção da biodiversidade regional.




