Moradores de favelas do Rio rejeitam modelo atual de operações policiais, aponta estudo

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Pesquisa inédita revela que nove em cada dez moradores de favelas do Rio de Janeiro reprovam operações policiais violentas e seus excessos.
© Joédson Alves/Agência Brasil
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Uma pesquisa inédita revelou que a vasta maioria dos moradores de favelas do Rio de Janeiro reprova veementemente as operações policiais que envolvem confrontos armados. O levantamento, coordenado por seis organizações da sociedade civil, ouviu milhares de pessoas em quatro das maiores comunidades da capital fluminense, trazendo à tona uma perspectiva crucial sobre a segurança pública e o impacto dessas ações no cotidiano.

Os dados, divulgados nesta quarta-feira (20), desafiam a narrativa de que a violência policial é uma medida aceita ou inevitável para combater o crime organizado. A pesquisa aponta para uma insatisfação generalizada com o modelo atual de intervenção, que, segundo os próprios moradores, gera mais prejuízos do que soluções efetivas para a segurança.

A voz das comunidades: reprovação e excessos

O estudo, intitulado Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?, entrevistou 4.080 pessoas presencialmente entre os dias 13 e 31 de janeiro deste ano. As comunidades abrangidas foram o Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré (na zona norte) e Rocinha (na zona sul), com 1.020 entrevistados em cada localidade. A coordenação ficou a cargo de Eliana Sousa Silva, diretora fundadora da Redes da Maré.

Os resultados são contundentes: 92% dos entrevistados reprovam as operações policiais realizadas nos moldes atuais. Dentre eles, 68% defendem que as ações precisam ser conduzidas de outra forma, enquanto 24% acreditam que nenhuma operação policial deveria ser realizada nas favelas. Mesmo entre o grupo minoritário que concorda com a necessidade de operações, apenas 20% apoiam o modelo de confronto armado.

A percepção de excessos e ilegalidades por parte da polícia é quase unânime, com 91% dos moradores relatando tais ocorrências. Este índice se mantém alto mesmo entre aqueles que apoiam as operações (85%), evidenciando que a concordância com a intervenção não se traduz em aceitação da brutalidade. Para 90% dos entrevistados, os excessos são inaceitáveis, e 95% dos que discordam das operações repudiam a violência.

Impacto devastador na vida diária

As operações policiais com confronto armado têm um efeito direto e severo na vida dos moradores. Eliana Silva ressalta que a escalada desses enfrentamentos, que se naturalizou ao longo do tempo, impede a população de exercer direitos básicos. Somente na Maré, entre 2023 e 2025, foram registradas 92 operações com confrontos, mortes e feridos, um cenário que se repete em outras favelas cariocas.

A restrição da circulação é o impacto mais citado, afetando 51% dos que discordam das operações e 41,5% dos que concordam. Moradores relatam dificuldades para ir ao trabalho, levar filhos à escola ou acessar serviços essenciais. A invasão ou violação de domicílios, estabelecimentos comerciais e veículos também é uma queixa frequente, mencionada por 37,5% dos que discordam e 22,9% dos que apoiam as ações.

A educação é um dos setores mais prejudicados. No Complexo da Maré, por exemplo, escolas municipais frequentemente fecham, resultando em até 30 ou 40 dias sem aulas. Essa interrupção contínua compromete o aprendizado e o futuro de milhares de crianças e jovens, que têm seu direito à educação cerceado pela lógica do confronto.

Debate sobre o modelo de segurança e alternativas

A pesquisa busca desmistificar a ideia de que moradores de favelas aprovam incondicionalmente as operações violentas. Eliana Silva critica a visão generalizada e negativa que a sociedade e a mídia muitas vezes impõem aos residentes dessas áreas, o que acaba justificando o confronto armado como única solução. No entanto, os resultados mostram que a população local anseia por abordagens diferentes.

A coordenadora do estudo defende que não há solução para o crime organizado sem uma visão mais ampla e coletiva da cidade. A focalização do problema exclusivamente nas favelas ignora as complexidades urbanas e sociais. A letalidade na Maré, por exemplo, aumentou 58% em 2025 em comparação com 2024, um dado que reforça a ineficácia do modelo atual.

Questiona-se, inclusive, o direcionamento de recursos públicos. Eliana Silva aponta o uso de emendas parlamentares para a compra de fuzis para a polícia do Rio de Janeiro como um exemplo de priorização equivocada. “É muito questionável quando a gente vê que o dinheiro público, que deveria ser direcionado para aumentar a capacidade e o acesso das pessoas a políticas públicas está sendo destinado à compra de mais armas para a polícia”, afirmou.

Cenário eleitoral e o desafio do racismo estrutural

A questão da segurança pública promete ser um tema central no ano eleitoral. A pesquisa serve como um alerta para os candidatos, que muitas vezes propõem soluções simplistas focadas na repressão, sem considerar o impacto humano. Eliana Silva enfatiza a importância de o eleitor conhecer os projetos dos candidatos e desconfiar de promessas que ignoram a complexidade do problema e a vida dos moradores.

A diretora da Redes da Maré também destaca o racismo estrutural presente na distribuição de políticas e recursos públicos. Enquanto todos os cidadãos deveriam ter direitos iguais, moradores de favelas frequentemente são colocados em uma condição de subalternidade, tendo seu direito fundamental à vida ameaçado. A operação mais letal da capital fluminense, ocorrida em outubro do ano passado nos complexos do Alemão e da Penha, que resultou em 122 mortos, é um trágico exemplo de como o modelo atual falha em proteger a população.

Para a maioria dos moradores, 85% deles, operações semelhantes não deveriam se repetir. Este clamor por mudança é um indicativo claro de que a sociedade precisa repensar as estratégias de segurança pública, buscando alternativas que respeitem a dignidade humana e promovam a paz nas comunidades.

Para mais informações sobre o impacto das operações policiais no Rio, acesse a matéria completa da Agência Brasil sobre a operação mais letal.

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