Estudo brasileiro usa mapeamento genético para antecipar gravidade da depressão em jovens

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Estudo brasileiro usa mapeamento genético para identificar risco e gravidade da depressão em jovens, avançando na precisão diagnóstica.
Estudo brasileiro usa mapeamento genético para antecipar gravidade da depressão em jovens
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Um estudo científico conduzido com mais de 2 mil crianças e jovens em São Paulo e Porto Alegre trouxe avanços significativos para a psiquiatria moderna. Pesquisadores brasileiros demonstraram que uma ferramenta de mapeamento genético é capaz de identificar indivíduos com maior vulnerabilidade à depressão, além de sinalizar a tendência de agravamento da doença desde a infância até o início da vida adulta.

A pesquisa, que integra os esforços do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), foi publicada em julho na revista científica Biological Psychiatry. O trabalho oferece uma nova perspectiva sobre o chamado “risco poligênico”, demonstrando que a genética não apenas define um ponto de partida para o transtorno, mas também influencia a trajetória clínica do paciente ao longo do tempo.

Avanço na precisão diagnóstica em populações miscigenadas

Um dos pontos centrais do estudo é a validação da ferramenta em populações altamente miscigenadas, como a brasileira. Historicamente, a maioria das pesquisas sobre risco genético concentrou-se em indivíduos de ancestralidade europeia, o que limitava a eficácia dessas tecnologias em outros contextos demográficos. Ao aplicar o modelo em jovens brasileiros, os cientistas comprovaram que o marcador preditivo mantém sua utilidade e relevância clínica fora do eixo tradicional de estudos genéticos.

O psiquiatra Marcelo Brañas, um dos autores do artigo, destaca que o objetivo foi entender se a genética molda a progressão dos sintomas. “Procuramos saber também se as ferramentas já existentes funcionam fora de populações de ascendência europeia, uma vez que as populações brasileiras miscigenadas seguem amplamente ausentes da genética psiquiátrica”, explica o especialista.

Relação entre genética e comportamentos de risco

Os dados revelam que jovens com pontuação elevada no escore genético apresentam um agravamento mais rápido dos sintomas depressivos. Mais do que isso, o estudo estabeleceu uma correlação importante: entre os pacientes já diagnosticados com transtorno depressivo maior (TDM), aqueles com maior carga genética de risco demonstraram uma suscetibilidade acentuada à autolesão não suicida — o ato de causar dano intencional ao corpo sem a intenção de provocar a morte.

“Nesse grupo de jovens, o risco poligênico para transtorno depressivo maior demonstrou relativa especificidade diagnóstica e identificou um curso de evolução mais grave da depressão”, afirma o pesquisador Lucas Ito, que assina o estudo ao lado de Brañas. Segundo os autores, essa associação ajuda a compreender os mecanismos biológicos por trás dos comportamentos mais severos da doença, reforçando a necessidade de monitoramento especializado.

Metodologia e o papel da Coorte de Alto Risco

Para chegar a essas conclusões, a equipe avaliou 2.163 voluntários, com idades entre 6 e 23 anos, acompanhados em três fases distintas do desenvolvimento. Os participantes fazem parte da Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC), um projeto de longo prazo que há mais de 15 anos investiga as origens genéticas e ambientais de transtornos psiquiátricos no país.

Embora os resultados sejam promissores, os pesquisadores ressaltam que a genética é apenas uma peça do quebra-cabeça. Para que a predição individual seja possível no futuro, esses dados precisarão ser integrados a informações clínicas e ambientais detalhadas. O estudo foi orientado pelo professor Euripedes Constantino Miguel, coordenador do CISM, com coorientação de Pedro Mario Pan e mentoria de Lois Choi-Kain, da Harvard University.

O CISM é um Centro de Pesquisa Aplicada apoiado pela Fapesp, sediado na Universidade de São Paulo (USP), e conta com a colaboração de diversas instituições, como a Unifesp, UFRGS, Unicamp e centros universitários como a UniFAJ e a UniMAX. O Fato Paulista segue acompanhando os desdobramentos desta pesquisa e outros avanços na área da saúde mental, mantendo nosso compromisso com a informação de qualidade e o rigor científico para nossos leitores.

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