A Bolívia se vê diante de um caso de grande repercussão, envolvendo uma ativista política e um consultor com histórico controverso. Em um movimento crucial para a garantia da lisura processual, o presidente do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Bolívia, Rómer Saucedo, determinou que a investigação do suposto atentado contra a advogada e ativista política Nadia Beller, de 33 anos, não seja mantida sob sigilo. A decisão atende a um pedido da própria vítima, visando assegurar transparência e o pleno acesso das partes aos detalhes do inquérito que chocou o país.
Saucedo enfatizou a importância da medida ao afirmar que, em resposta à solicitação de Nadia, instruiu o juiz responsável a não declarar o processo confidencial. “Para que ela possa ter acesso a todas as informações e para que lhe sejam fornecidas todas as garantias necessárias”, declarou o presidente do TSJ a jornalistas, classificando a ativista como “amiga”. Ele também solicitou ao presidente do Tribunal de Justiça de Santa Cruz de la Sierra que empenhe todos os esforços para o rápido esclarecimento do caso, garantindo que qualquer requerimento do Ministério Público seja atendido imediatamente.
O atentado em Santa Cruz e as acusações da vítima
O incidente que desencadeou a mobilização judicial ocorreu na última segunda-feira, 17 de junho. Nadia Beller estava na calçada, em frente a um hotel na cidade de Santa Cruz, quando foi surpreendida por dois motociclistas não identificados. Os agressores se aproximaram e efetuaram vários disparos à queima-roupa. Segundo informações do Ministério Público, a ativista foi atingida por ao menos três tiros: um na região do pescoço, outro no tórax e um terceiro no braço direito, evidenciando a gravidade do ataque.
Internada em uma unidade de saúde em Santa Cruz, Nadia Beller rapidamente apontou um nome como mandante do atentado: Fernando Cerimedo, de 45 anos. A ativista gravou um vídeo e concedeu entrevistas ainda no leito hospitalar, detalhando a dinâmica dos acontecimentos. Ela relatou que foi ao hotel para encontrar uma pessoa que prometeu entregar-lhe provas que comprometeriam o ex-presidente boliviano Evo Morales. Segundo Nadia, Cerimedo a teria incentivado a ir ao local, garantindo que haveria seguranças, o que não se confirmou.
“Ele me disse: ‘Ah, sim, eu soube desse caso’. E como, anteriormente, eu tinha dito a ele que estava receosa, ele me disse que não ia acontecer nada porque não tinha lógica tentarem algo em um hotel com câmeras à vista de todos. Ele apoiou minha ida e mentiu ao dizer que me mandou escoltas”, declarou Nadia, reforçando a acusação de que foi induzida a uma situação de vulnerabilidade.
Fernando Cerimedo: de conselheiro político a principal suspeito
A prisão de Fernando Cerimedo ocorreu na terça-feira, 18 de junho, por agentes da Força Especial de Combate ao Crime. O consultor argentino foi detido no Aeroporto Internacional Viru Viru, próximo a Santa Cruz, no momento em que se preparava para embarcar em um voo com destino à Argentina. Cerimedo é uma figura conhecida no cenário político, atuando como conselheiro do presidente boliviano Rodrigo Paz, que assumiu o cargo em novembro de 2025, e como ex-estrategista de campanha do mandatário argentino Javier Milei.
O próprio Cerimedo já reconheceu ter tido um relacionamento amoroso com Nadia Beller. Autoridades bolivianas informaram que a ativista afirma estar grávida de poucos meses, um detalhe que adiciona uma camada de complexidade e dramaticidade ao caso, sugerindo um possível motivo passional por trás do ataque, embora as acusações de Nadia também apontem para um contexto político.
Repercussão oficial e o peso das acusações de feminicídio
A defesa de Cerimedo nega veementemente o envolvimento dele no atentado, alegando que o cliente é vítima de uma armação política. Contudo, o fiscal-geral do Estado, Roger Mariaca Montenegro, já antecipou que a comissão de promotores que investigam o caso deve solicitar a prisão preventiva por até 180 dias do conselheiro presidencial, acusando-o de tentativa de feminicídio. “Não esqueçamos que, assim como existiriam autores materiais, também podem existir outros autores intelectuais que podem estar envolvidos ou ter participação neste fato”, acrescentou Montenegro, garantindo que o Ministério Público investigará a fundo todas as ramificações do caso.
A gravidade da acusação de tentativa de feminicídio ressalta a seriedade com que as autoridades bolivianas estão tratando o caso, que vai além de um simples atentado, adentrando a esfera da violência de gênero. A sociedade boliviana, assim como a comunidade internacional, acompanha de perto os desdobramentos, esperando por justiça e clareza.
Na quarta-feira, 19 de junho, o presidente Rodrigo Paz se manifestou sobre o ocorrido em suas redes sociais. Paz informou ter instruído as autoridades responsáveis a realizar “uma investigação profunda, transparente e exaustiva, até esclarecerem o ocorrido”. O presidente boliviano também garantiu que Nadia Beller receberá “toda a segurança e as garantias necessárias”, e que as investigações contarão com “absoluta transparência e independência”, reforçando o compromisso do governo com a elucidação dos fatos e a proteção da vítima.
O passado de Cerimedo e suas polêmicas internacionais
A figura de Fernando Cerimedo não é nova no cenário de controvérsias políticas. Ele já foi descrito pela revista The Economist como “o homem do MAGA na América Latina”, em alusão ao slogan político do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Make America Great Again. Essa associação sublinha seu perfil ideológico e sua atuação em campanhas de direita na região.
No Brasil, o consultor argentino ganhou notoriedade em 2022. Logo após o segundo turno das eleições presidenciais, Cerimedo participou de uma transmissão ao vivo na internet, na qual propagou a teoria de que o resultado das urnas havia sido fraudado para garantir a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Jair Bolsonaro (PL). Sem apresentar provas concretas, ele alegou que as urnas eletrônicas não podiam ser auditadas – uma informação prontamente rebatida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determinou a remoção do vídeo das redes sociais por disseminação de desinformação.
Seu envolvimento com eventos antidemocráticos no Brasil se aprofundou após a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, quando grupos radicais invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. A Polícia Federal (PF) indiciou Cerimedo por tentativa de abolir o estado democrático de direito no Brasil, conectando-o a um movimento mais amplo de contestação de resultados eleitorais e desestabilização institucional. Este histórico adiciona um peso considerável à sua atual situação na Bolívia, levantando questões sobre os possíveis desdobramentos e a natureza das motivações por trás do atentado contra Nadia Beller.
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