A campanha Julho Verde ganha contornos de urgência ao colocar em evidência uma correlação preocupante na medicina contemporânea: o papel das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) no surgimento de tumores na região da cabeça e do pescoço. Embora o tabagismo e o consumo de álcool continuem sendo os principais fatores de risco clássicos, a incidência de neoplasias ligadas ao papilomavírus humano (HPV) tem crescido de forma expressiva, exigindo um novo olhar sobre a prevenção e o diagnóstico precoce.
O impacto do HPV na orofaringe
O HPV é um dos principais agentes biológicos associados ao câncer de orofaringe, que atinge áreas críticas como a base da língua e as amígdalas. Segundo Carlos Lehn, cirurgião de cabeça e pescoço do Iamspe, a complexidade do vírus reside na sua diversidade. “Existem mais de 200 tipos de papilomavírus, mas os subtipos 16 e 18 são classificados como de alto risco. Eles produzem proteínas capazes de desativar os mecanismos naturais de defesa do organismo contra tumores, permitindo que células sofram mutações e proliferem de forma descontrolada”, explica o especialista.
A prática clínica tem confirmado esse cenário, com um aumento notável nos diagnósticos de tumores orofaríngeos ligados ao vírus. Dados do Ministério da Saúde revelam que os atendimentos por esse tipo de neoplasia saltaram de 42.252 em 2021 para 62.894 em 2025, um crescimento de 48,8%. Esse salto estatístico reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à vacinação e à conscientização sexual.
Imunidade e vulnerabilidade celular
Além do HPV, o HIV também desempenha um papel indireto, porém decisivo, no desenvolvimento desses tumores. Estudos, como o publicado pela Revista Brasileira de Cancerologia em 2020, indicam que o câncer pode acometer até 50% dos indivíduos que vivem com HIV. É importante ressaltar que o vírus da aids não produz o tumor diretamente, mas atua como um facilitador ao comprometer o sistema imunológico.
Quando o sistema de defesa está debilitado, o organismo perde a capacidade de identificar e eliminar alterações celulares precoces. O risco é potencializado quando o paciente, por questões de vulnerabilidade social ou hábitos de vida, mantém exposição a outros agentes cancerígenos, como o cigarro e o álcool, criando uma combinação perigosa para a saúde das vias aerodigestivas superiores.
Estratégias de prevenção e vigilância
A prevenção permanece como a ferramenta mais eficaz contra o avanço dessas doenças. O protocolo de cuidado envolve a vacinação contra o HPV, o uso consistente de preservativos em todas as práticas sexuais e a adesão rigorosa ao tratamento antirretroviral para pacientes com HIV. Além disso, a realização periódica de exames de rastreamento, com avaliação detalhada da cavidade oral e da orofaringe, é fundamental para a detecção de lesões em estágios iniciais, onde as chances de cura são significativamente maiores.
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