Luiz Romero me convidou para escrever nesta coluna semanalmente onde pretendo colocar histórias sobre ocorridos, espaços e pessoas que fazem e fizeram parte da história do bairro.
Espero que gostem do conteúdo que semanalmente publicarei aqui e que participem de forma interativa comentando os textos, trazendo suas experiências, vivências e histórias.
Para inaugurar a Coluna escolhi um texto que homenageia a Nação Corintiana pela excelente campanha que está desenvolvendo no Campeonato Paulista.
- Sou São Paulino fanático.
Itaquerão ou Neo Química Arena – No túnel do Tempo
Ao passar por áreas reurbanizadas da nossa São Paulo, por edifícios importantes e marcantes de nossa cidade, sempre me pergunto: como deveriam ser esses locais antes? Quem morava nessa região? Como era a topografia, a vegetação…? Enfim, o que existia por aqui?
Tendo o privilégio de nascer em Itaquera e ter vivenciado toda a transformação do local onde hoje está o Itaquerão ou melhor Neo Química Arena, julguei por bem deixar registradas aqui as respostas às perguntas acima, para que um dia algum curioso ou pesquisador possa encontrá-las.
Vamos lá… Na década de 50, havia uma grande área que se estendia da Vila Corberi, em Itaquera, até as proximidades da estação da Central do Brasil, em Artur Alvim. Do lado direito, fazia fronteira com a linha do trem, e do esquerdo, com o bairro Cidade Líder. Uma área de aproximadamente 25 mil metros quadrados, que pertencia ao IAPTEC (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Estivadores e Transporte de Carga). Toda a sua extensão era plantada com eucaliptos, e por isto ficou popularmente conhecida como “Calipal”.
Calipal… quanta saudade guardo desse espaço…
Para nós, crianças, parecia tão imenso que seria impossível atravessá-lo de um lado a outro sem se perder, ou sem arriscar ser vitimado por uma onça – ou até mesmo por um leão, que os pais diziam existirem ali para que não nos aventurássemos em suas profundezas.
O Calipal sempre foi o campo de batalhas das turmas de garotos de diferentes vilas, pois nenhum moleque ousava entrar lá sozinho – de modo que as peregrinações por ali eram feitas em bando. Quando as turmas se encontravam, a maior tratava logo de fazer correr a menor, e ali eram travadas grandes batalhas de estilingue entre os garotos do Falcão do Morro, do Serrana e da AE Carvalho.
Dois córregos cortavam nossa floresta: o Areião e o Pequeno. Areião tinha esse nome porque sua formação era muito diferente dos demais córregos. Ele tinha pouca profundidade, algo em torno de 15 centímetros, mas uma largura de mais de 5 metros. Seu fundo, por toda a extensão, era formado por uma espessa camada de areia amarela, que originou seu nome. Alguns moradores retiravam, diariamente, dezenas de caminhões de areia apenas na base da pá. Entre eles, destacava-se o Dodô. Negro forte, corpo de halterofilista, corintiano roxo e o melhor tocador de contra surdo da Escola de Samba do Falcão do Morro.
Hoje, este córrego está escondido em galerias sob a Radial Leste e a ele foi dado o nome de “Córrego da Laranja Azeda”. Não sei de onde tiraram este nome, mas sei que foi obra de algum infeliz que não se preocupa com os valores e memória da região.
Embora menor, o Córrego Pequeno é mais importante para esta narrativa, principalmente sua nascente. Pontinha Preta, nome da nascente do Córrego Pequeno, era um local mágico, que marcaria a vida de todos os garotos de Itaquera e região. Tratava-se de um pequeno lago de águas cristalinas, e foi nosso clube privado, onde todos nós aprendemos a mergulhar e a nadar, exatamente nesta ordem.
O nome Pontinha Preta foi dado em função do fundo do lago ser formado por argila negra – ao primeiro mergulho, suas águas cristalinas tornavam-se turvas, da cor do carvão. Que delícia era nadar na Pontinha Preta e, após alguns mergulhos, deitar-se no gramado que a margeava e curtir o sol, batendo papo e contando vantagem entre os garotos.
Em certa oportunidade, fomos até ali numa turma de uns cinco garotos. Lembro que lá estavam o Giba, o Clóvis, o Alemão, eu e mais alguém, de quem agora não me recordo. Era um dia de final de semana, provavelmente um domingo. Todos nós tomávamos banho pelados, pois não poderíamos chegar em casa com roupa molhada ou suja, para não denunciar nossa façanha.
Meu pai sorrateiramente nos descobriu lá e tratou de apanhar todas as nossas roupas, levando-as para casa. Os garotos imploraram para o seu Antônio devolver, mas não teve jeito. Já que havíamos sido descobertos e estávamos sem roupa para ir para casa, só nos restava continuar nadando até o final do dia.
Hora de ir para casa. Como passar pelados por toda a Vila Corberi? Logo iria escurecer, e não tínhamos coragem de atravessar o Calipal no escuro, pois os leões e onças atacavam durante a noite.
A salvação foram as bananeiras do brejo e suas belas e grandes folhas espalmadas. Cada moleque arrancou duas ou três folhas de banana-do-brejo e, com elas tapando a frente e a traseira, fomos embora, sendo alvo de gozação por onde passávamos.
Ali pesquei o meu primeiro lambari, com uma vara de galho de eucalipto, linha de costura e anzol feito de alfinete de cabeça.
Muitas cobras habitavam a região para se alimentarem das rãs que lá viviam. Num final de tarde, muitos anos depois, fui lá com meu sobrinho Rafael, caçar borboletas para a coleção que ele estava preparando, para a feira de ciências do Liceu Camilo Castelo Branco.
Distraídos e olhando apenas para o alto à procura das borboletas, fomos surpreendidos pelo som do guizo de uma enorme cascavel, que estava de espreita no trilho, no meio do sapezal. Foi um grande susto, quase pisamos na cobra. Quando ela ergueu a cabeça para dar o bote no Rafael, sem pestanejar, enfiei o cabo do coador de borboleta no meio da víbora.
Rafael não levou borboleta para a feira de ciências, e sim a cobra exposta em um grande vidro com formol. Foi o maior sucesso daquela exposição.
No início da década de 70, começou a construção da primeira Cohab em Itaquera, e nossa floresta encantada foi derrubada para a construção dos apartamentos populares entre Artur Alvim e Itaquera. Toda a área foi alvo de terraplanagem, sem a preservação dos pequenos córregos e da Pontinha Preta.
Para atender ao crescimento da população de Itaquera com transporte de qualidade, ali surgiu a Radial Leste e foi construída a Estação Corinthians do Metrô. Em seguida, Itaquera ganharia seu grande shopping, que também foi edificado ali.
A pedreira de Itaquera, que deu nome ao bairro (pedra dura em tupi-guarani) e que forneceu as pedras para a construção da Catedral da Sé, foi desativada e soterrada na mesma época.
Atualmente, tenho passado pelo local rodando sobre as pistas da Radial Leste. Fica claro para mim que a área não era tão grande assim. Que seus limites não eram tão distantes e inalcançáveis e que ali nunca viveram onças e leões.
Pude perceber como é florida a imaginação das crianças. Como foi bom ser criança ali e desfrutar daquele lugar.
Na semana passada, parei bem em frente ao Itaquerão, ou como preferem os corintianos Neo Química Arena, e me permiti meditar sobre como era o lugar antes. Olhei o entorno, a linha do metrô, o Morro do Falcão, consultei o meu “Google Maps” imaginário e tive certeza: o centro do gramado do Itaquerão é exatamente no olho d’água da nascente da Pontinha Preta.
Agora, por ali desfilam muitas cobras, peixes, gaviões, porcos, bambis e gaviões. Ali já houve um jogo de abertura de uma copa do mundo. Os corintianos se orgulham de seu estádio que é um dos mais modernos do mundo, mas eu confesso que tenho muita saudade da Pontinha Preta.