Desafio na visão: fila por transplante de córnea no Brasil se aproxima de 38 mil pacientes

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A fila por transplante de córnea no Brasil atinge quase 38 mil pessoas, um aumento de 24% em seis meses, revelando desafios no sistema de saúde.
Desafio na visão: fila por transplante de córnea no Brasil se aproxima de 38 mil pacientes
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A saúde ocular no Brasil enfrenta um desafio crescente: a fila por transplante de córnea atingiu a marca de 37.719 pessoas em todo o país. Este número representa um aumento significativo de 24% em apenas seis meses, partindo dos 32.639 pacientes registrados em dezembro de 2025. Os dados, divulgados pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), acendem um alerta sobre a complexidade do sistema de saúde e a urgência em otimizar o acesso a esses procedimentos.

Apesar da demanda crescente, o cenário não é de estagnação. O CBO destaca que o Brasil alcançou um marco histórico em 2025, realizando 17.790 cirurgias de transplante de córnea, o maior volume já registrado. Contudo, essa capacidade operacional esbarra em um paradoxo: mesmo com um número recorde de procedimentos, a lista de espera continua a se expandir rapidamente, impulsionada pelo ritmo acelerado de novas indicações médicas.

O paradoxo da fila e o avanço dos transplantes de córnea

O sistema nacional de transplantes de córnea opera em uma dinâmica peculiar. Embora a quantidade de cirurgias realizadas anualmente se aproxime de uma autossuficiência teórica para o fluxo de novos casos, o passivo acumulado ao longo dos anos impede que a fila diminua. Como resultado, o tempo médio de espera para um transplante de córnea no Brasil é de 370 dias, mais que o dobro dos 174 dias registrados há uma década.

Essa demora impacta diretamente a qualidade de vida dos pacientes, muitos dos quais enfrentam limitações severas na visão. A córnea, camada transparente na parte frontal do olho, é essencial para a nitidez da imagem. Doenças degenerativas, traumas ou infecções podem danificá-la, tornando o transplante a única esperança para restaurar a visão.

Fatores que impulsionam o aumento da espera

O CBO aponta uma série de fatores multifacetados para o cenário atual. Um dos principais é a defasagem nos valores pagos pelos procedimentos, que não acompanham os custos crescentes. Essa falta de reajuste afeta diretamente a sustentabilidade dos bancos de olhos, responsáveis pela captação, processamento e distribuição das córneas.

A pandemia de covid-19 também deixou sua marca, causando um represamento de pacientes e a suspensão de cirurgias eletivas entre 2020 e 2023. Além disso, a manutenção dos bancos de olhos é dificultada pelos custos de insumos, que são cotados em dólar, e pelo incremento de exigências regulatórias nas fases de produção e processamento da córnea, como a necessidade de gestão de qualidade. Essas demandas, somadas à remuneração estagnada, geram um desequilíbrio financeiro para as instituições.

Cenário regional: contrastes na gestão da fila

A gestão da fila de transplantes de córnea apresenta grandes contrastes entre os estados brasileiros. O Ceará se destaca como um modelo de agilidade, tendo realizado 1.371 transplantes em 2025 e, apesar de 1.639 novos ingressos, encerrou dezembro com apenas 93 pacientes ativos na lista. O Mato Grosso também demonstra eficiência, com apenas 37 pacientes em espera.

No extremo oposto, o Rio de Janeiro é um exemplo da disparidade. Em 2025, o estado realizou apenas 653 transplantes, enquanto recebeu 1.720 novos pacientes na fila, resultando em um acumulado de 4.760 pessoas ativas em dezembro. Outros estados populosos, como São Paulo, concentram as maiores filas absolutas, com 7.505 pacientes, e Minas Gerais, com 4.532. No entanto, a relação entre fila e transplantes nesses estados é mais equilibrada que a fluminense. É preocupante notar que Amapá e Roraima não registraram nenhum transplante de córnea em 2025.

Perfil dos pacientes e reconhecimento internacional

A análise do perfil dos pacientes na fila de espera revela que as mulheres são maioria, representando 56% dos candidatos. A faixa etária com maior representatividade é a de pessoas com 65 anos ou mais, que somam quase metade da fila (47%). Esse dado reflete o envelhecimento da população brasileira e o aumento das doenças degenerativas da córnea associadas à idade.

Um ponto de atenção especial é a fila infantojuvenil. Atualmente, 753 crianças e adolescentes aguardam por um transplante de córnea, um aumento em relação aos 616 pacientes registrados em dezembro de 2025. Apesar dos desafios internos, o Brasil mantém uma boa avaliação internacional no campo dos transplantes, com desempenho comparável a países como Canadá, Austrália e algumas nações europeias, e se destaca como líder na América Latina.

A trajetória da recuperação pós-pandemia

O ano de 2020 foi um divisor de águas para o sistema de transplantes de córnea, com a suspensão de cirurgias eletivas para priorizar leitos para a covid-19. Naquele ano, foram realizados apenas 7.349 transplantes, menos da metade dos 14.942 feitos em 2019. Contudo, o sistema demonstrou resiliência e capacidade de recuperação.

O número de transplantes de córnea saltou para 12.869 em 2021, continuou a crescer para 14.082 em 2022, 16.028 em 2023, 17.108 em 2024, e atingiu o recorde de 17.790 cirurgias em 2025. Essa trajetória de recuperação, apesar de notável, ainda não foi suficiente para conter o crescimento da fila, um tema central de debates em eventos como o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia (CBO 2026), que acontece em Salvador.

Acompanhar de perto a evolução dos transplantes de córnea é fundamental para entender os desafios e avanços da saúde pública no Brasil. Para mais informações sobre este e outros temas relevantes, continue acompanhando o Fato Paulista, seu portal de notícias com informação de qualidade e contextualizada.

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