Escolas se armam com educação de gênero para combater violência e agressões online de meninas

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Escolas e violência contra meninas: entenda como instituições de ensino lidam com agressões online e a importância da educação de gênero.
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Colégio Cruzeiro.
Colégio Cruzeiro.

Um incidente grave envolvendo uma lista de cunho sexual com nomes de alunas, divulgada em plataforma online por estudantes do Colégio Cruzeiro, no Rio de Janeiro, reacendeu o debate sobre o papel das instituições de ensino no combate à violência contra meninas. O caso, que resultou no acionamento da Polícia Civil e está sob investigação da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV), expõe a complexidade das agressões digitais e a urgência de abordagens pedagógicas e legais para proteger adolescentes.

A repercussão do ocorrido extrapolou os muros da escola de elite carioca, evidenciando como o ambiente digital se tornou um novo palco para manifestações de assédio e humilhação. Especialistas ouvidos pelo Fato Paulista sublinham que situações como essa demandam uma ação multifacetada, envolvendo não apenas a punição dos agressores, mas, sobretudo, a prevenção e a educação contínua de toda a comunidade escolar.

O alerta do Colégio Cruzeiro e a dimensão do cyberbullying

O episódio no Colégio Cruzeiro serve como um doloroso lembrete da vulnerabilidade de adolescentes no ambiente online. A criação de listas com conotação sexual, que expõem e constrangem meninas, não é um fato isolado e reflete um problema crescente de cyberbullying e assédio digital. A Polícia Civil do Rio de Janeiro, por meio da DCAV, está conduzindo as diligências necessárias para apurar os fatos, buscando identificar os responsáveis e as circunstâncias que levaram à disseminação do conteúdo.

A escola, ao tomar conhecimento, agiu prontamente, acionando as autoridades por meio de boletim de ocorrência e exigindo a remoção do material da plataforma, o que já foi feito. Além disso, alertou as famílias e iniciou um processo de apoio integral às alunas e seus familiares. Em nota, o Colégio Cruzeiro reforçou seu compromisso com o bem-estar e a segurança dos alunos, repudiando “qualquer atitude de exposição que os afetem” e destacando que a conduta ética e a responsabilidade digital são temas constantemente abordados em campanhas de conscientização, com palestras de juízes, psicólogos, especialistas em tecnologia e delegados.

O duplo papel da escola: pedagógico e protetivo

Para a professora Telma Vinha, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a escola é, por essência, um espaço de aprendizagem. Ela defende que incidentes de violência, por mais graves que sejam, devem ser encarados como oportunidades para um trabalho contínuo de conscientização e desenvolvimento social. “Uma situação como essa tem muitas camadas e essas camadas devem ser trabalhadas como prevenção, de uma maneira muito mais sistematizada e contínua”, explica Vinha. Ela acrescenta que “a função da escola é que os problemas, as violências, os conflitos, eles podem ser oportunidades de aprender a viver socialmente”.

Complementando essa visão, Denise Carreira, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), enfatiza que, além do papel pedagógico, as escolas têm a responsabilidade legal de acionar os órgãos competentes em casos de atos infracionais cometidos por crianças e adolescentes. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece a importância de a escola identificar as situações, acolher as vítimas e notificar o conselho tutelar e a rede de proteção. “A nossa legislação também, inclusive, o ECA, reconhece que os adolescentes também podem ser sujeitos de atos infracionais”, pontua Carreira.

A importância da escuta ativa e da responsabilização

No centro da intervenção escolar em casos de violência, a prioridade deve ser sempre a vítima. Telma Vinha ressalta a necessidade de uma escuta cuidadosa e empática, que deixe claro para a aluna que ela não tem qualquer responsabilidade pelo ocorrido e que a escola e a família a protegerão de novas exposições. “Tem que ser aquela escuta cuidadosa no sentido que deixa muito claro que ela não tem responsabilidade nisso. Deixa muito claro que a escola, que a família vai protegê-la de novas exposições. Então, é justamente falar sobre ela, como ela se sente. Que que ela gostaria que fosse feito”, detalha a professora.

Vinha alerta, contudo, para que essa escuta não se transforme em um interrogatório ou em uma manifestação de curiosidade, mas sim em um suporte genuíno que ajude a orientar os próximos passos da escola em relação aos agressores. Para os autores da infração, a recomendação é o diálogo individualizado, buscando entender as motivações e o comportamento em grupo que muitas vezes impulsiona tais atos. O foco é pedagógico: “A nossa questão é o que os envolvidos têm que aprender sobre isso”, afirma Vinha, sugerindo que se trabalhe com eles formas de restauração e a compreensão da gravidade de suas ações.

Educação de gênero como ferramenta de prevenção

Denise Carreira destaca que o enfrentamento eficaz da violência contra meninas e mulheres, bem como contra a população LGBTQIA+, passa necessariamente pela discussão de assimetrias de gênero nas escolas. “Não tem como a gente avançar no enfrentamento da violência contra meninas, mulheres, população LGBTQIA+ sem a gente fazer essa conversa séria nas escolas”, defende.

Um ponto crucial, segundo a especialista, é a discussão sobre as masculinidades. É fundamental que os meninos compreendam o papel que exercem na sociedade e sejam incentivados a construir relações mais igualitárias, desconstruindo a “masculinidade tóxica ou hegemônica”. Essa masculinidade, muitas vezes ancorada em perspectivas de dominação e desqualificação do feminino, também gera sofrimento para os próprios meninos que não se encaixam nesse padrão. Carreira enfatiza a necessidade de desmontar esses padrões por meio de rodas de conversa, projetos e formação de profissionais de educação, considerando isso fundamental para combater o feminicídio e outras formas de violência.

A professora, que foi relatora da proposta de Política Nacional de Educação para a Igualdade de Gênero, Diversidade Sexual e Educação Integral em Sexualidade, e participou da elaboração do material educativo “Indicadores de Qualidade na Educação: gênero, raça e sexualidade na escola”, lembra que a Lei Maria da Penha já estabelece o debate sobre gênero e raça nas escolas como forma de enfrentar a violência. O silenciamento desses temas, ela conclui, “acaba comprometendo e ceifando vidas”, não apenas de meninas e mulheres, mas também dos próprios meninos, que sofrem por não performarem essa masculinidade hegemônica.

O caso do Colégio Cruzeiro e as análises de especialistas reforçam que a escola é um pilar essencial na construção de uma sociedade mais justa e respeitosa. A educação para a cidadania digital, o acolhimento às vítimas e a discussão aberta sobre gênero são ferramentas poderosas para prevenir e combater a violência em todas as suas formas. Para continuar acompanhando as discussões mais relevantes sobre educação, segurança e direitos, acesse o Fato Paulista, seu portal de informação relevante e contextualizada.

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