A Argentina, hoje aclamada como campeã mundial e detentora de uma sequência invejável de títulos, nem sempre desfrutou de tal glória. Por quase três décadas, a seleção conviveu com um incômodo e traumático jejum de conquistas, uma sombra que pairava sobre os ombros de seus maiores talentos, incluindo Lionel Messi. Para compreender a transformação que levou os hermanos ao topo do futebol mundial, é essencial revisitar um período crucial: a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, e, principalmente, a Copa América de 2019, realizada no Brasil. Embora o troféu continental daquele ano tenha ficado com os anfitriões, a Argentina retornou para casa com a sensação de que algo maior estava por vir, um presságio do que se tornaria a vitoriosa ‘Scaloneta’.
A relevância desses eventos reside não apenas nos resultados em campo, mas na profunda reestruturação interna e na mudança de mentalidade que se operaram. A Copa América de 2019, em particular, funcionou como um cadinho, forjando a união do grupo e catalisando a emergência de um novo tipo de liderança por parte de Messi, que deixou de lado a passividade para se tornar uma voz ativa e combativa, tanto dentro quanto fora das quatro linhas.
O Legado de um Jejum e o Caos de 2018
A seleção argentina enfrentou um período de quase 28 anos sem erguer um troféu importante, desde a Copa América de 1993. Esse jejum gerou uma pressão imensa sobre cada geração de jogadores, culminando em uma Copa do Mundo de 2018 desastrosa. A fase de grupos foi sofrível, com um empate por 1 a 1 contra a Islândia, onde Messi perdeu um pênalti crucial, e uma derrota humilhante por 3 a 0 para a Croácia, marcada por uma falha gritante do goleiro Willy Caballero. A equipe parecia desorganizada e sem rumo.
O ambiente interno era ainda mais conturbado. Conforme revelado no livro “Crônicas de Ontem”, do jornalista argentino Ariel Senosiain, o técnico Jorge Sampaoli, que havia assumido um ano antes, foi alvo de um motim liderado por Messi e pelo volante Javier Mascherano. O grupo exigia mais participação nas decisões táticas e estratégicas. Apesar de uma vitória por 2 a 1 sobre a Nigéria, que manteve a Albiceleste viva no torneio, a derrota por 4 a 3 para a França nas oitavas de final adiou, mais uma vez, o sonho do tricampeonato mundial.
A Ascensão Inesperada de Scaloni e a Renovação
Após o fracasso na Rússia, Sampaoli deixou o cargo, apesar de ter contrato até 2022. A Associação de Futebol Argentino (AFA), em crise desde o escândalo do “Fifagate” em 2015, demorou a anunciar um novo treinador. Por dois meses, a incerteza pairou sobre a seleção. O início do ciclo para a Copa do Catar teve dois técnicos interinos: Lionel Scaloni e Pablo Aimar, que vinham da seleção sub-20.
Posteriormente, Scaloni foi efetivado no comando da Albiceleste até a Copa América de 2019, com Aimar como auxiliar. A escolha foi recebida com ceticismo generalizado pela mídia e pelos torcedores. Scaloni não tinha experiência prévia como treinador principal de uma seleção, o que levou o ídolo máximo do país, Diego Maradona, a criticar publicamente a decisão, afirmando que o ex-lateral não tinha capacidade sequer para “orientar o trânsito”. Contudo, essa aposta arriscada viria a ser o ponto de partida para uma das eras mais vitoriosas do futebol argentino.
Copa América 2019: O Cadinho da Transformação
A Copa América de 2019 marcou uma significativa renovação no elenco argentino. Dos 23 jogadores que estiveram na Rússia em 2018, apenas 10 remanescentes foram convocados. Para outros nove atletas, aquela seria a primeira competição pela seleção principal. Nomes como Rodrigo De Paul, Leandro Paredes e Lautaro Martínez, que se tornariam pilares da equipe campeã mundial em 2022, fizeram sua estreia em grandes torneios, assim como os zagueiros Juan Foyth e Germán Pezzella e o meia Guido Rodrigues.
A trajetória na competição foi árdua. A Argentina estreou com derrota por 2 a 0 para a Colômbia, seguida por um empate por 1 a 1 com o Paraguai. A classificação para as quartas de final só veio com uma vitória por 2 a 0 sobre o Catar. No Maracanã, um novo triunfo por 2 a 0 sobre a Venezuela garantiu a vaga nas semifinais, onde enfrentariam o Brasil. Apesar de uma das melhores atuações do time no torneio, a Albiceleste não resistiu à Amarelinha, que venceu por 2 a 0.
Após a eliminação, a revolta argentina com a arbitragem foi intensa, com alegações de falta na origem do segundo gol brasileiro e um pênalti não marcado a favor dos argentinos. O porta-voz dessa indignação, para surpresa de muitos, foi Lionel Messi. O craque, outrora criticado por sua suposta passividade como capitão, não poupou palavras e chegou a falar em “armação” para que o Brasil vencesse a Copa América. Essa postura combativa marcou um ponto de virada em sua liderança.
A Argentina terminou o torneio em terceiro lugar, após vencer o Chile por 2 a 1 em um jogo marcado pela expulsão de Messi, após uma discussão com o zagueiro Gary Medel. Apesar de mais um ano sem títulos, o apoio do elenco – e, crucialmente, do camisa 10 – foi fundamental para a permanência de Scaloni. “Nós criamos um grupo a partir da união e quero que nos fortaleçamos cada vez mais. Chegar ao terceiro lugar era o mínimo que poderíamos fazer. Este grupo pode mais e dará muito mais frutos”, projetou o técnico na coletiva pós-jogo, demonstrando a crença no projeto.
A Consolidação da “Scaloneta” e a Glória
A projeção de Scaloni se concretizou. Dois anos depois, em uma nova Copa América no Brasil, realizada em meio à pandemia de covid-19, uma versão mais entrosada e letal da seleção argentina foi além. O passe de De Paul, que o lateral Renan Lodi não conseguiu cortar, encontrou Di María, que encobriu o goleiro Ederson para fazer o gol que decretou o fim do jejum de 28 anos sem conquistas. Mais do que isso, foi o primeiro título de Messi pela Albiceleste, um marco que selou sua transformação e a validação do projeto de Scaloni.
Essa conquista evidenciou que aquela Argentina era diferente da que havia fracassado em finais consecutivas, como as da Copa do Mundo de 2014 e das Copas América de 2015 e 2016. A “nova” Albiceleste, a “Scaloneta”, não parou por aí. A união, a tática e a liderança de Messi e Scaloni pavimentaram o caminho para a consagração máxima: a vitória na Copa do Mundo de 2022, no Catar, um triunfo que coroou um processo de resiliência, renovação e uma profunda metamorfose. A Copa América de 2019, portanto, não foi apenas um torneio, mas o ponto de ignição de uma era de ouro para o futebol argentino.
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