A megaoperação realizada pelas forças de segurança pública do Rio de Janeiro nesta terça-feira (28) e que deixou mais de 120 pessoas mortas rachou mais uma vez a bancada de São Paulo no Congresso Nacional. De um lado, alguns parlamentares, geralmente os da oposição, se posicionaram a favor da operação – batizada de Contenção –, e por outro, os governistas, criticaram a ação.
Segundo dados apresentados por pesquisadores ouvidos pela imprensa após o ocorrido no Rio de Janeiro, a operação ocorrida na terça-feira nos complexos de comunidades do Alemão e da Penha já pode ser considerada a mais letal da história do país. Ela fica, por exemplo, à frente do massacre do Carandiru e a da Operação Escudo/Verão, que tiveram um saldo de mortos de 111 e 84 respectivamente.
O governador do Rio, Cláudio Castro (PL), parabenizou a operação e disse que ela foi um “sucesso”. “Tirando a vida dos policiais, o resto da operação foi um sucesso”, declarou, em coletiva de imprensa na manhã desta quarta-feira (29). O governador também se solidarizou com as famílias dos quatros policiais mortos durante a operação.
“Temos muita tranquilidade de defender o que foi feito ontem. Queria me solidarizar com as famílias dos quatro guerreiros que deram a vida para libertar a população. Eles foram as verdadeiras quatro vítimas. De vítima ontem, só tivemos os policiais”, disse o govenador Castro.
Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria ficado “estarrecido”, segundo informou à imprensa o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski. “O presidente ficou estarrecido com o número de ocorrências fatais que se registaram no Rio de Janeiro”, afirmou Lewandowski em entrevista coletiva, no Palácio da Alvorada, nesta quarta (29).
“[Lula] também, de certa maneira, se mostrou surpreso que uma operação desta envergadura fosse desencadeada sem conhecimento do governo federal, sem nenhuma possibilidade do governo federal poder de alguma forma participar com os recursos que têm, sobretudo com informações, com apoio logístico”, disse Lewandowski.
O ministro se reuniu ontem com o governador Cláudio Castro para discutir a situação e após o encontro os dois anunciaram a criação de um Escritório Emergencial de Combate ao Crime Organizado. O núcleo será organizado pelo secretário de segurança do Rio, Victor Santos.
Oposição

Como vem sendo comum no país, a falta de consenso entre as vertentes políticas mais uma vez imperou sobre a operação no Rio de Janeiro. Para os partidos de oposição, criticar a operação e se sensibilizar com a morte de bandidos são atitudes que precisam ser refutadas. Para esses parlamentares, o ocorrido precisa ser apoiado pela população, já que os índices de violência, não só no Rio, mas em todo o país, aumenta ano após ano.
Para o deputado federal Delegado Palumbo (MDB-SP), por exemplo, a ação das policias no Rio foi “uma faxina em legítima defesa”. Ele rechaçou a ideia de que tenha sido uma “chacina” ou um “massacre”. “Bandido que usa fuzil para atirar na polícia tem que ser neutralizado”, afirmou o deputado em suas redes sociais.
“O Rio de Janeiro está vivendo um cenário de guerra. A bandidagem comanda, a polícia é atacada com drones e o governo federal ainda recusa o envio de blindados. Enquanto o povo vive o terror”, escreveu o deputado.
Outro congressista de São Paulo que também se posicionou a favor da operação e em defesa das vidas dos policiais, foi o senador Marcos Pontes (PL-SP). Para ele, o ocorrido no Rio de Janeiro coloco o país diante de um dilema: ou a população fica do lado da polícia, ou fica do lado dos bandidos e do crime organizado.
“Com muita tristeza, presto minha homenagem aos quatro policiais mortos durante a operação nos complexos do Alemão e da Penha. (…) São quatro famílias devastadas. Às corporações e aos colegas, minha solidariedade e respeito. Às famílias, meu abraço e todo o apoio institucional que estiver ao meu alcance. Que os responsáveis sejam perseguidos e punidos com todo o rigor da lei”, disse o senador. “Paz aos que partiram. Força aos que ficam”, concluiu.
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Governistas

Para a base aliada ao governo, a operação policial no Rio de Janeiro foi um desastre. De acordo com parlamentares dessa ala, a ação foi mal planejada, teria faltado inteligência, o que teria contribuído para a morte de mais de 100 pessoas.
Uma das congressistas que defendem esse ponto de vista é a deputada federal Sâmia Bomfim (Psol-SP). Em suas redes sociais, a deputada criticou a ação policial e chamou de “horríveis” as cenas divulgadas da operação. Segundo a deputada, é preciso combater o crime organizado, mas esse combate precisa ocorrer de forma organizada e planejada.
“Obviamente não é com carnificina e espetáculo irresponsável que se combate algo tão profundo e complexo. Mas é óbvio que Claudio Castro [governador] não quer solucionar nenhum problema de violência. Até parece que busca solucionar esse drama e toda sua estrutura. Ele sabe muito bem como funciona e é conivente com os poderosos que lucram com a violência e o crime”, afirmou Sâmia.
Além dela, o deputado federal Kiko Celeguim (PT-SP) também ressaltou que o que aconteceu no Rio não se tratou de uma operação policial, mas sim de um “massacre”. Conforme ressaltou o deputado, a ação foi uma “política de extermínio” promovida pelas forças de segurança pública do estado.
“Mais de 120 mortos, corpos espalhados em praças e vielas, enquanto Cláudio Castro transforma a tragédia em palanque. O mesmo governador que finge combater o crime nas favelas, mas fecha os olhos para onde o dinheiro sujo circula: nos escritórios, nas milícias de terno, nos aliados bolsonaristas”, criticou o deputado. “O país precisa reagir, porque o que acontece no Rio não é segurança, é barbárie”, resumiu.




