A urgência do enfrentamento à violência contra a infância
O Brasil encerrou, em Brasília, o III Congresso Brasileiro de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. O evento, promovido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), colocou em evidência a necessidade de articular estratégias mais eficazes para a proteção da juventude. O debate ocorre em um momento crítico, integrando a campanha nacional “Faça Bonito”, que marca o Maio Laranja, mês dedicado à conscientização sobre o abuso e a exploração sexual de menores, conforme estabelecido pela Lei Federal 9.970/2000.
A data, celebrada anualmente em 18 de maio, carrega um peso histórico fundamental: é uma homenagem à memória de Araceli Cabrera Crespo, menina de apenas 8 anos brutalmente assassinada em 1973, no Espírito Santo. Mais do que um marco no calendário, o período serve como um alerta constante para que a sociedade e o Estado não negligenciem a segurança de crianças e adolescentes, cujos direitos fundamentais continuam sob ameaça constante.
O papel estratégico da escola na prevenção
Para especialistas, a escola ocupa um lugar central como o principal ponto de contato entre o Estado e os jovens. Lucas Lopes, secretário executivo da Coalizão Brasileira pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes, enfatiza que o ambiente escolar deve ser um espaço de proteção e identificação precoce de sinais de abuso. Segundo ele, investir em prevenção dentro das salas de aula é a estratégia mais robusta para ampliar o repertório de autoproteção dos estudantes.
A implementação da Lei da Escuta Protegida (Lei 13.431/2017) reforça essa responsabilidade, obrigando instituições a acionarem órgãos competentes diante de qualquer suspeita. No entanto, Lopes ressalta que a escola não pode atuar sozinha. O suporte da segurança pública e a atuação integrada dos conselhos tutelares são indispensáveis para que os sinais de violência não sejam lidos de forma isolada, o que poderia levar a erros de diagnóstico ou à omissão de socorro.
Desafios orçamentários e a proteção digital
Um dos maiores gargalos apontados no congresso é o descompasso entre as políticas públicas desenhadas e a realidade orçamentária. Embora o país conte com planos nacionais estruturados, a falta de envolvimento efetivo de pastas como o Ministério do Planejamento e Orçamento dificulta a execução prática das ações. A regulamentação da Política Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual é vista como um passo necessário para garantir que o financiamento chegue à ponta, onde o atendimento é mais urgente.
No cenário digital, o cenário é igualmente complexo. Embora o chamado ECA Digital seja reconhecido internacionalmente como uma referência legislativa, a aplicação prática das normas pelas grandes empresas de tecnologia ainda é um campo em disputa. A jornada para garantir um ambiente virtual seguro para menores é longa e exige vigilância constante, tanto do poder público quanto da sociedade civil, para garantir que as obrigações legais sejam cumpridas.
A invisibilidade dos meninos na agenda de proteção
O debate também trouxe à tona a necessidade de incluir os meninos nas estratégias de prevenção. Dados indicam que mais de 13% das vítimas de violência sexual são do sexo masculino, mas o tema permanece frequentemente invisibilizado por preconceitos sociais. O imaginário de que meninos seriam “mais resistentes” ou que a denúncia causaria constrangimento familiar acaba por impedir que muitos recebam o suporte necessário após o trauma.
Lopes defende que a educação sexual e autoprotetiva deve ser tratada como um componente de qualidade de vida e desenvolvimento humano, afastando-se de debates ideológicos ou morais que apenas dificultam o acesso à informação. Ao ensinar crianças sobre seus corpos e limites, o Estado promove a autonomia progressiva, permitindo que elas identifiquem manobras de agressores e busquem ajuda antes que o dano seja irreversível.
O Fato Paulista segue acompanhando os desdobramentos dessas discussões e o impacto das políticas públicas na proteção da infância. Continue conosco para se manter informado sobre os temas que moldam a sociedade brasileira com credibilidade e profundidade.




