O ator Bruno Gagliasso trouxe à tona um debate necessário sobre a preservação da memória histórica no Brasil durante o lançamento de seu mais novo projeto cinematográfico. Para o artista, a produção audiovisual brasileira ainda está aquém do necessário quando o assunto é o período da ditadura militar (1964-1985). A declaração ocorreu durante a coletiva de imprensa em Brasília para o lançamento de Honestino, filme dirigido por Aurélio Michiles que mistura documentário e ficção para narrar a trajetória do líder estudantil assassinado pelo regime.
Ao ser questionado sobre a percepção de que o cinema nacional já teria explorado exaustivamente o tema, Gagliasso foi enfático ao afirmar que “nunca vai ser o suficiente”. Segundo o ator, quem critica a quantidade de obras sobre o período demonstra desconhecimento sobre a diversidade e a própria história do país. O longa-metragem, que estreia em 18 cidades brasileiras nesta quinta-feira, busca preencher uma lacuna sobre uma das figuras mais emblemáticas da resistência estudantil no Planalto Central.
Honestino Guimarães: o rosto da resistência estudantil na UnB
O filme mergulha na vida de Honestino Guimarães, um estudante de geologia da Universidade de Brasília (UnB) que se tornou um símbolo de luta. Honestino ocupou cargos de liderança na Federação dos Estudantes da UnB e chegou à presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE). Sua trajetória foi interrompida abruptamente em 1973, quando foi preso e, posteriormente, dado como desaparecido aos 26 anos de idade.
Durante a composição do personagem, Gagliasso revelou ter se emocionado ao ouvir de familiares do líder estudantil que sua caracterização estava fiel à imagem do jovem que defendia o ensino público e gratuito. O ator destacou que aceitou o convite para o papel por entender que a história de Honestino precisa ser conhecida por todas as gerações, reforçando que o personagem representa todos aqueles que lutam por justiça, igualdade e democracia.
Cinema como ferramenta de memória e o contraste com a Argentina
A discussão sobre a quantidade de filmes produzidos sobre regimes autoritários ganhou contornos estatísticos através de Nilson Rodrigues, produtor do longa. Ele apresentou um comparativo direto com outros países da América do Sul que também enfrentaram períodos ditatoriais, evidenciando que o Brasil ainda trata o tema com certa timidez no campo das artes.
- O Brasil produziu cerca de 30 filmes de ficção sobre a ditadura militar.
- A Argentina, em contraste, já ultrapassou a marca de 100 obras sobre o tema.
- A produção brasileira foca em casos isolados, enquanto vizinhos exploram o contexto sistêmico.
- O cinema é visto como peça fundamental para que crimes contra os direitos humanos não sejam esquecidos.
Para os realizadores, essa diferença numérica reflete como cada sociedade lida com suas feridas históricas. Enquanto outros países transformaram a memória em política de Estado e pauta cultural constante, o Brasil ainda enfrenta resistências para aprofundar o debate sobre os anos de chumbo no cinema comercial e de grande alcance.
Desafios da reconstrução histórica em um filme híbrido
O diretor Aurélio Michiles explicou que a escolha pelo formato de documentário-híbrido — que mescla depoimentos reais com cenas dramatizadas por atores — foi uma necessidade técnica e narrativa. Um dos maiores obstáculos foi a escassez de registros visuais da época. Durante a ditadura, lideranças estudantis evitavam ser fotografadas ou filmadas em assembleias e protestos para não fornecer provas à repressão.
Para suprir essa falta de arquivos, Michiles recorreu a registros raros, como um filme produzido pelo hoje cineasta Hermano Penna, que registrou a invasão de agentes da ditadura à UnB em 1968. Esse material é considerado uma “pérola” histórica por mostrar a violência explícita contra alunos e professores antes da promulgação do AI-5. A integração de Bruno Gagliasso no elenco permitiu que o filme desse vida a momentos que não foram capturados pelas câmeras da época, humanizando a figura de Honestino para o público contemporâneo.
A obra chega aos cinemas com a missão de não deixar que a história seja apagada. Como destacou Gagliasso, conhecer o passado é uma forma de agir pelo futuro. O compromisso com a verdade histórica e a valorização da democracia são pilares que sustentam essa nova produção, convidando o espectador a refletir sobre o preço da liberdade no Brasil.
Para continuar acompanhando análises aprofundadas sobre cultura, cinema e os fatos que moldam a história do nosso país, continue acessando o Fato Paulista. Nosso compromisso é levar até você informação de qualidade, com o contexto necessário para entender a realidade brasileira.




