A Cidade dos Velhinhos รฉ um exemplo de casa de abrigo para idosos, sendo um modelo a ser copiado como exemplo tanto pela gestรฃo humanizada com que as irmรฃs e os funcionรกrios administram a casa como pela qualidade da estrutura oferecida ร seus moradores.ย ย
ย Se vocรช nรฃo conhece esta instituiรงรฃo, recomendo que faรงa uma visita e, se ficar animado, seja um dos voluntรกrios deste projeto รญmpar e desafiador.ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย ย
Entrevista com a Irmรฃ Maria Luรญza Nogueira, publicada em 2003, no Museu da Pessoa.ย ย
A Irmรฃ, jรก falecida, juntamente com a Irmรฃ Otรญlia, fundaram, em 1961, a Cidade dos Velhinhos Santa Luiza de Marillac, em Itaquera, na regiรฃo metropolitana de Sรฃo Paulo.ย ย
Natural de Fortaleza, no Cearรก, Irmรฃ Maria Luiza fez o noviciado em 1947, aos 17 anos, no Rio de Janeiro. Conhecida como โnoviรงa rebelde e quebradora de tabusโ, por meio da fรฉ e da dedicaรงรฃo, conquistou direitos para os idosos e revela nesta entrevista o seu sonho.ย
โEu gostaria que todos os idosos descobrissem a sua cidadania, que eles fossem politizados. Que eles reconheรงam a forรงa maravilhosa que eles tรชm, que รฉ o voto, que eles tรชm que votar atรฉ o fim da vida deles, escolher bem e cobrar, fazer cobranรงa. Gostaria de ver os velhos, todos sorrindo, participando, fazendo seus passeios alegres e felizes, reconhecendo que o fim da vida ainda รฉ o comeรงo de uma felicidadeโ.ย
โVim de muito longe, de 1930, em Fortaleza, a cidade onde o Sol brilha mais.โ De Fortaleza para Sรฃo Paulo e para o mundo, Irmรฃ Maria Luiza rememora suas lutas, pois โlembrar รฉ um tipo de reencontroโ. E รฉ atravรฉs do reencontro com sua trajetรณria de vida โcheia de sobras e luzesโ โ como descreve a histรณria da Cidade dos Velhinhos โ que pauta sua narrativa de noviรงa rebelde e quebradora de tabus. Por meio da fรฉ e da dedicaรงรฃo nas conquistas polรญticas, a Irmรฃ conquistou direitos para os idosos, antecessores que construรญram a cidadeโย
Por que Itaquera para fundar a Cidade dos Velhinhos?ย
R โ Itaquera porque naquela รฉpoca eu estava fazendo pesquisa, e eu estava procurando quem doasse. Por que quem ia doar? Primeira coisa: o sonho de uma Irmรฃ, noviรงa rebelde, voadora, sei lรก o que era… Mas justamente, veio de um amigo jornalista do Correio Paulistano, Alcides Rossi, ele jรก estรก aposentado. Eu sempre falava para ele que queria fazer a Cidade dos Velhinhos, eu ia a todos os jornais, e ele me disse: โPor que vocรช nรฃo procura a famรญlia Morganti? Eles sรฃo muito caridosos, jรก tรชm diversos asilos.โ Eu passei dez anos para ir falar com o Morganti. Quando eu fui, era na rua Formosa. Ele mandou ร secretรกria: โQuem quer falar com ele?โ โร uma Irmรฃzinha.โ โ Eu era bem nova ainda, nรฉ? โ โEu quero saber se ele รฉ bonito ou รฉ feio. Nรฃo, ele รฉ bem bonito, atรฉ.โ (risos) Ele aceitou e me mandou que eu fosse escolher um terreno lรก. Ele queria que eu escolhesse ou em Franco da Rocha, ou Itaquera. Franco da Rocha รฉ um sรญmbolo de louco, nรฉ? Porque lรก tem a… Aรญ fui para Itaquera, mas depois me arrependi, porque nรฃo tinha รกgua, nรฃo tinha luz. Mas eu venci. Ele me ajudou muito, cada festa que ele fazia, que ele era deputado, ele me ajudava muito. Essas passagens para a Europa, tudo ele que me dava, me dava estadia e tudo.ย
E nessa primeira visita ร Itaquera, o que viu lรก, no bairro?ย
R โ Sem estrutura nenhuma. Eram umas casas isoladas. Tinha uma rua onde eu circulava, e eu aprendi a dirigir, atolava com o meu carro lรก dentro, aรญ eu ficava lรก no sรญtio dele, e foi muito duro. Na inauguraรงรฃo, na pedra fundamental, o bispo disse: โโItaโ quer dizer โpedraโ em tupi-guarani, e โqueraโ quer dizer โduraโโ. ร muita forรงa de vontade. Eu nunca pensei, na minha vida, que os dez pavilhรตes fossem construรญdos, mas foram, com muita forรงa, com muita coragem. Depois, eu ia sempre ร televisรฃo, fui garota-propaganda por muito tempo. Era no programa do Aรญrton [Rodrigues], pergunta para tua avรณ que ela deve saber.ย
Quem era o Morganti? Ele tinha o que lรก em Itaquera?ย
R โ A famรญlia Morganti, quando eu procurei, era uma das famรญlias mais ricas de Sรฃo Paulo, talvez a mais rica. Eles eram o Rei do Aรงรบcar, que o pai dele รฉ que fundou esse aรงรบcar refinado. Eles tinham tanta terra… Eu vejo atรฉ diversas usinas do Lino Morganti, principalmente no estado do Rio [de janeiro]. Eles eram quatro irmรฃos, ele era o Lino, gรชmeo com o Hรฉlio, que jรก faleceu, mais um que era mรฉdico e outro que era o mais bonito, que era o que gastava o dinheiro. E tinha mais umas trรชs irmรฃs. Todo o mundo faleceu. Tem… Os filhos dele e tudo. O Lino Morganti se empolgou muito para esta obra, entรฃo ele me procurou, foi comigo, me deu a mรฃo, muito, atรฉ antes de morrer. Nรณs fomos procurar um dos melhores arquitetos de Sรฃo Paulo, era o Croce, Plรญnio Croce, jรก falecido. E quem executou foi o irmรฃo dele, que ainda รฉ vivo. Como era mesmo o nome dele? Mas aquilo ali foi muito difรญcil, porque eu nรฃo queria que seu Lino construรญsse a cidade sozinho. Porque talvez nรฃo tivesse valor. Entรฃo, uma Cidade dos Velhinhos era como se fosse uma colcha de retalhos que cada um desse o seu pedaรงo. Eu recebi esmolas atรฉ de mulheres que catavam papel na rua, que moravam em barracos: estรก aqui a minha contribuiรงรฃo. A histรณria da Cidade dos Velhinhos รฉ uma histรณria assim, de sombras e de luzes. Sabe do que eu estou falando? Talvez um dia, logo, logo, eu comece a escrever essa histรณria, que รฉ muito bonita. Mas eu sofri, tambรฉm.ย
Aos 93 anos, ir. Otรญlia segue com sua missรฃo na Cidade dos Velhinhos.ย
Todos os dias, Irmรฃ Otรญlia acorda ร s 4h, com o cรฉu ainda escuro, e vai atรฉ a cozinha acender o fogรฃo para aquecer a รกgua do cafรฉ dos funcionรกrios que estรฃo por chegar. Depois, faz uma visita aos cinco pavilhรตes da Cidade dos Velhinhos para ver se tem algum doente necessitando de ajuda. Zelosa, ela precisa garantir que todos estรฃo bem.ย ย
รs 7h, jรก com o dia raiando, a Irmรฃ vai ร missa, toma seu cafรฉ da manhรฃ e em seguida assume a tarefa de distribuir os produtos de limpeza que serรฃo utilizados naquele dia. Almoรงa e volta ao trabalho. รs 18h janta, faz uma oraรงรฃo e assiste um pouco de TV. Sintoniza o canal em algum telejornal ou em uma novela. รs 20h30 se prepara para dormir, nรฃo sem antes fazer a leitura do evangelho.ย
Irmรฃ Otรญlia tem 93 anos, mas continua a se dedicar com afinco ร missรฃo que recebeu em 1966. Foi naquele ano que ela chegou a Itaquera, na regiรฃo metropolitana de Sรฃo Paulo, para construir este lar de idosos, que atรฉ entรฃo era um grande terreno baldio, doado por um benfeitor local.ย
Chegou acompanhada pela Irmรฃ Maria Luiza Nogueira. Nos primeiros quatro meses, elas dormiram no barracรฃo de obras, construรญdo para guardar as ferramentas. โAqui era mato puro. Lembro de subir a Rua Sabato Dยดรngelo e sรณ ver mato e morro. Nรฃo tinha asfalto nem รกguaโ, lembra ela, com a memรณria de uma jovem postulante. Quando o primeiro pavilhรฃo ficou pronto, com a ajuda de doaรงรตes do povo de Sรฃo Paulo, foi uma alegria sรณ.ย
Otรญlia Barbosa de Souza nasceu na cidade mineira de Peรงanha, em 1932.ย Era filha de Maria em uma parรณquia onde o padre pregava muito sobre vocaรงรตes.ย A visita de duas irmรฃs Filhas da Caridade na parรณquia despertou o seu interesse pela Companhia.ย Tornou-se uma delas em 1960, com 28 anos.ย
Como postulante, trabalhou na Casa dos Pobres de Nova Friburgo e em seguida fez o seminรกrio na Casa Provincial, no Rio de Janeiro. Por dois anos, chegou a usar a tradicional corneta, aquele chapelรฃo branco que simulava o voo de uma gaivota. Em 1964, quando houve a mudanรงa do hรกbito, Irmรฃ Otรญlia passou a usar o vรฉu.ย
As histรณrias que a Irmรฃ guarda sobre a Cidade dos Velhinhos sรฃo inรบmeras. Como a da construรงรฃo, no final da dรฉcada de 60, pela Fundaรงรฃo Tolstoi, de outros cinco pavilhรตes, em troca de abrigo para refugiados russos. Nos anos seguintes, cerca de 600 idosos daquele paรญs passaram pela Cidade dos Velhinhos, a maioria vinda da Sibรฉria, principal rota de exรญlio. Atualmente, os pavilhรตes sรฃo ocupados por idosos de diversas regiรตes, especialmente de Sรฃo Paulo.ย
A missรฃo na Cidade dos Velhinhos continua sendo cumprida, mas Irmรฃ Otรญlia jรก faz um balanรงo bem positivo sobre os mais de 50 anos dedicados ร casa.ย ย ย โAqui รฉ maravilhoso. Os idosos tรชm privacidade. Hรก um quarto para cada um, com televisรฃo. E eles tรชm liberdade. Cada pavilhรฃo tem o seu prรณprio refeitรณrio, eles nรฃo precisam se deslocar para fazer suas refeiรงรตes. Estรก tudo รณtimoโ, diz.ย
E a boa memรณria nรฃo a deixa esquecer de uma das coisas que aprendeu durante a convivรชncia com os russos: โspokoynoy nochiโ, diz ela, sorrindo. Boa noite para a senhora tambรฉm, Irmรฃ Otรญlia!ย
Se vocรช desejar fazer uma visita, o endereรงo รฉ:ย
- Jardim Tamoio, 537 – Itaquera, Sรฃo Paulo – SP, 08253-445
Telefone: (11) 2521-6227ย
Vocรช pode ser um voluntรกrio ou um doador para ajudar esta casa que tanto ajuda os idosos.ย ย
CRรDITOSย
FILHAS DA CARIDADE RJ ORG; MUSEU DA PESSOA Projeto Memรณrias nos Bairros Depoimento de Irmรฃ Maria Luiza Nogueira Entrevistada por Stella e Clรกudia Leonor Sรฃo Paulo, 25/09/2000 Cรณdigo: MT_HV012 Realizaรงรฃo: Museu da Pessoa Transcritora Marina Dโ Andrรฉa Revisย