Arte contemporânea ocupa a fachada do Sesi Lab
O Sesi Lab, localizado na área central de Brasília, inaugurou nesta terça-feira (15) uma intervenção artística monumental que transforma a percepção visual do edifício. Intitulada Bordaduras, a obra da renomada artista plástica Regina Silveira cobre 530 metros quadrados da fachada de vidro do museu, utilizando adesivos vinílicos que simulam agulhas e padrões de ponto de cruz em diferentes estágios de execução.
A instalação não apenas altera a estética do prédio, mas convida o público a refletir sobre a interseção entre o trabalho manual tradicional e as novas linguagens digitais. A escolha do tema remete à história das mulheres e ao aprendizado doméstico, ressignificando o ato de bordar como uma forma de expressão artística contemporânea e política.
Memória e afeto no ambiente de trabalho
Para além do impacto visual, a obra despertou conexões pessoais profundas entre os funcionários do espaço. Kaliane Martins, agente de portaria do Sesi Lab, encontrou na instalação um espelho de sua própria trajetória. Aos 40 anos, a potiguar, que cresceu na capital federal, viu na representação das agulhas uma lembrança viva dos ensinamentos de sua mãe e avó.
“Aprendi a bordar com a minha mãe e com minha avó. Vi as agulhas e me fez recordar”, compartilhou Kaliane. Para ela, a costura sempre foi mais do que um ofício; foi uma ferramenta de sobrevivência e cuidado, utilizada para vestir seus três filhos e sustentar sua jornada de vida. A presença da arte no ambiente de trabalho transformou o cotidiano da profissional, que agora enxerga o museu como um espaço de diálogo com sua própria história.
Diálogo entre tradição e era digital
Aos 87 anos, Regina Silveira, professora emérita da Universidade de São Paulo (USP), utiliza a tecnologia para expandir os limites da arte tradicional. A artista explica que os padrões gráficos presentes em Bordaduras dialogam com a arquitetura do museu, utilizando suportes digitais para criar uma ilusão de ótica que desafia o olhar do espectador.
O conceito da obra, segundo a autora, é inerentemente feminista. Ela resgata o período do Pré-Renascimento, quando o bordado era uma das poucas formas de alfabetização e expressão permitidas às mulheres. Ao exibir pontos incompletos, a instalação sugere um processo de criação contínuo, onde o erro e o inacabado fazem parte da narrativa artística.
Tecnologia e reflexão política
A intervenção no Sesi Lab integra a programação do 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, evento que debate como os meios digitais influenciam a cultura contemporânea. Além da fachada, o público pode conferir a obra Dígito, exibida em um painel de LED no interior do museu, reforçando a trajetória da artista na exploração da distorção de objetos cotidianos.
A obra de Regina Silveira mantém seu caráter provocador, convidando o público a interpretar livremente as agulhas espalhadas pelo edifício. O trabalho reafirma o compromisso do Sesi Lab em promover o acesso à cultura e à ciência, conectando diferentes gerações e saberes. O Fato Paulista segue acompanhando as principais movimentações culturais e tecnológicas do país, trazendo sempre um olhar aprofundado sobre os eventos que marcam a nossa sociedade.




