
Nos últimos anos outra parcela da sociedade começa ‘a tomar posição’, lutando contra as desigualdades, muitas vezes contra o preconceito e, sobretudo, contra a violência que são vítimas diariamente. Todos os dias, mulheres são assassinadas no Brasil, por maridos, namorados ou pessoas próximas. Muitas são humilhadas, mal tratadas, têm suas dignidades violentadas por quem não tem respeito e tampouco compaixão.
Uma dessas vitimas de violência, que teve perna quebrada, sua dignidade aviltada, foi humilhada e sua vida poderia ter acabado como a de muitas outras mulheres que aceitaram e talvez por medo ou insegurança não lutaram.
Ela lutou e fundou o Projeto Social Casa Lili Mulheres em Ação no Jardim Rodolfo Pirani em São Mateus. Aureni Ferreira Pavan ou simplesmente Lili depois do ‘basta’, iniciou há 10 anos a Casa que já atendeu mais de 1000 mulheres em sua história e começou a estudar e se preparar para a batalha em prol de outras mulheres vítimas de violência. Ele é formada em Serviço Social e está cursando Psicologia.
‘Resolvi estudar para aplicar todo o aprendizado aqui na nossa entidade, muitos me disseram para trabalhar fora, mas prefiro continuar aqui e fortalecendo a nossa associação e nossa luta’, explica a simpática Lili. Vale destacar que a Casa Lili conta com uma bem estruturada sede na rua Severino de Freitas Prestes, 331 no Jardim Rodolfo Pirani.
Lili conta que recebe apoio de amigos para a distribuição de cerca 40 cestas básicas todos os meses para mulheres em situação de vulnerabilidade social. Para manter as atividades da associação ela trabalha no salão de cabelereiros de sua propriedade, aliás vale lembrar que a Casa Lili promove cursos gratuitos de estética para as mulheres vítimas de violência. ‘Assim elas passam a ter uma renda para buscarem o auto sustento, sem depender de ninguém’, explica.
A Associação ainda promove todas as semanas uma ‘roda de bate papo’, onde cada mulher conta a sua experiência, desde o calvário do sofrimento até libertação e a independência. ‘Muitas chegam aqui tristes, chorando, desesperadas, mas pouco a pouco vão superando e aquelas que já estão vencendo o trauma da violência que sofreram, vão orientando e ajudando aquelas que chegam’, conta Lili. Hoje 20 mulheres participam, mas existe uma lista de espera. Ao final de cada reunião a Casa de Lili oferece um agradável ‘café da tarde’.
Ela conta que desde a infância conviveu com a violência doméstica, na infância era agredida fisicamente pelo pai e quando chegou em São Paulo cheia de sonhos, casou-se com um militar. Foi quando viu a sua vida virar um pesadelo sendo agredida fisicamente e moralmente. Teve até joelho fraturado devido as agressões. ‘Passei 35 anos da minha vida convivendo com a violência doméstica, por isso que resolvi dar minha parcela de contribuição em prol desta causa. Enquanto eu era agredida, pensava em estudar e lutar por esta causa, para que outras mulheres não passem pelo que passei’, comenta.
Conta que quando se formou em Serviço Social recebeu diversas ofertas de trabalho, mas preferiu usar todo o conhecimento adquirido em prol das mulheres vitimas de violência.
Atuando como secretária-voluntária, está uma jovem de apenas 19 anos, que jamais sofreu violência, mas viveu de perto calvário de sua mãe. A jovem Glaice Carvalho de Souza conta que de tanto ver sua mãe sofrer com a violência doméstica, resolveu se engajar na luta. ‘Sou uma voluntária daqui com muita honra’, comenta .
Graças as rodas de bate papo ministradas pela Lili, filhas voltaram a falar com as suas mães, casamentos foram restaurados e muitos relatos de dor, viraram histórias de superação.
‘Mas temos que pensar na família como um todo, onde a figura da matriarca é o centro de tudo, por isso muitas esposas solicitaram que promovêssemos reuniões dos Alcoólatras Anônimos para que seus maridos participassem. A primeira já acontecerá nos próximos dias’, anunciou.
Quanto a distribuição de cestas básicas, Lili conta que o cadastro é feito a partir das mulheres que participam das atividades como os bate-papos e os cursos de estética. ‘Mas são todas em condição de vulnerabilidade social’, avisa. Ela destaca que as cestas são doadas por um grupo de amigos que vieram através da campanha ‘Doe um alimento a quem tem fome’, que tem entre os idealizadores o advogado Dr. Hamilton Clemente Alves. As doações são feitas com absoluta transparência inclusive em cada doação um vídeo é produzido com a família recebendo e este vídeo é enviado com exclusividade ao respectivo doador. ‘Agimos com transparência, mas também com discrição, pois o vídeo é enviado somente ao doador da respectiva família. Não compartilhamos em redes sociais, o vídeo somente é feito para o doador ver para quem foi a cesta doada’, explica.
Os próximos objetivos são a conquista de uma sede própria e a busca por convênios públicos para ampliar os trabalhos da Casa de Lili.
A história da vice-presidente Luana de Carvalho também é de muita luta. Ela conta que chegou na entidade em busca de esperança, pois por muitos anos sofreu com a violência doméstica. ‘Aqui encontrei esperança, praticamente renasci. Hoje minha vida melhorou muito, mas quero continuar aqui para ajudar outras mulheres que estão passando pelo que passei. A Casa Lili não é somente cesta básica, vai muito mais além, pois aqui a mulher se sente acolhida’, explicou.
Amazonense, indígena, mulher vítima de violência Nilma, veio para São Paulo e viveu um casamento de um ano e oito meses de muito sofrimento e muita agressão moral. Sendo muita humilhada até que um dia deu um basta. ‘Quando passei aqui, senti que ia ser ajudada, fui bem acolhida, me renovei e hoje sou outra mulher’, comenta. Cita ainda que o seu grande objetivo é trabalhar para quem sabe um dia voltar para o Amazonas e levar toda a mensagem da Casa Lili para mulheres de sua aldeia.




