Em um mundo que frequentemente insiste em colocar rótulos e barreiras, a arte surge como uma ferramenta poderosa de subversão e afirmação. Neste 21 de setembro, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, histórias como as do fotógrafo Luciano Ambrósio e da estilista Juliana Santos ganham relevo não apenas como exemplos de superação, mas como manifestos vivos contra o capacitismo. A data convida a sociedade a refletir sobre a cidadania plena e a urgente necessidade de derrubar preconceitos estruturais que ainda limitam o potencial humano.
Para Luciano Ambrósio, de 57 anos, a fotografia é uma forma de traduzir o mundo. Residente em Ceilândia (DF), o mineiro perdeu a visão aos 24 anos, mas não permitiu que a escuridão interrompesse sua percepção estética. Através de um software de voz e de uma sensibilidade aguçada para texturas, sons e a incidência da luz, ele captura o cotidiano com uma precisão que surpreende. “Eu sei muito bem o que é beleza visual. Isso ainda está guardado aqui no meu cérebro”, afirma o artista, que se prepara para lançar seu primeiro livro, Meu olhar, reunindo imagens e poesias.
A fotografia como extensão da percepção
A trajetória de Luciano na fotografia começou há uma década, durante uma oficina de arte inclusiva. O que era um exercício de observação tornou-se uma extensão de sua própria identidade. O fotógrafo mapeia o ambiente fisicamente, sentindo a inclinação do terreno e a textura do solo, enquanto utiliza a tecnologia para descrever o que está diante da lente. A esposa, Edna Teodoro, destaca a vitalidade do marido e lamenta que o capacitismo ainda seja uma barreira cotidiana, citando episódios em que terceiros ignoram a autonomia de Luciano em situações simples, como fazer um pedido em um restaurante.
O impacto do capacitismo na trajetória profissional
Enquanto Luciano encontra na lente uma forma de expressão, a estilista goiana Juliana Santos, de 40 anos, enfrenta o lado mais sombrio da exposição digital. Radicada em São Paulo, a profissional, que possui uma trajetória consolidada de 12 anos e mais de 2.300 vestidos produzidos, tem sido alvo de uma perseguição sistemática na internet. Os ataques, focados em sua condição de pessoa com deficiência, transcenderam o campo moral e atingiram diretamente sua produtividade. O número de contratos, que chegou a 678 em 2024, despencou drasticamente diante da hostilidade virtual.
Juliana, que perdeu os dedos das mãos em um incêndio na infância, defende que sua capacidade criativa é independente de limitações físicas. “Não são as minhas mãos que fazem os vestidos, é o meu cérebro, é o meu olhar, é a minha criatividade”, enfatiza. Em busca de reparação, a estilista recorreu à Justiça e aguarda o desfecho de um inquérito por calúnia e stalking. Como forma de protesto, ela preparou uma intervenção artística: um vestido confeccionado com 200 comentários ofensivos recebidos nos últimos dois anos, transformando a dor em um manifesto contra o preconceito.
Cidadania e o papel da sociedade
A relevância destas narrativas ultrapassa o indivíduo e toca em dados alarmantes sobre a desigualdade. Relatórios recentes do IBGE apontam que pessoas com deficiência enfrentam condições de moradia inferiores e possuem rendimentos médios equivalentes a apenas 70% do que ganham pessoas sem deficiência. O cenário exige políticas públicas mais eficazes e uma mudança cultural profunda. A luta contra o capacitismo não é apenas uma pauta de inclusão, mas uma questão de direitos humanos fundamentais.
Acompanhar essas trajetórias é fundamental para compreendermos que a diversidade é um componente essencial da nossa cultura. O Fato Paulista mantém seu compromisso em trazer reportagens que dão voz a quem desafia estigmas e constrói caminhos de inovação. Continue acompanhando nosso portal para mais conteúdos que unem informação, contexto social e a valorização das histórias que moldam o Brasil.




