A recente reportagem da Folha de S.Paulo sobre os R$ 520 milhões destinados pelo governo Lula à propaganda institucional antes do período eleitoral abre uma discussão importante sobre a disputa presidencial de 2026. Mais do que olhar apenas para os números, é preciso compreender o que eles revelam sobre o funcionamento da política brasileira.
A questão principal não é afirmar que há ilegalidade. Não é esse o ponto. Governos podem e devem comunicar ações públicas. Campanhas de vacinação, programas sociais, obras, serviços e políticas públicas precisam chegar ao conhecimento da população. O Estado não para porque existe eleição.
Mas a política também não para.
E é exatamente aí que mora a discussão. Quando um presidente disputa a reeleição, ele não entra no jogo nas mesmas condições dos seus adversários. Ele continua governando, viajando pelo país, anunciando medidas, participando de eventos oficiais, reunindo ministros, recebendo prefeitos, liberando recursos e ocupando o centro da atenção pública.
Em outras palavras: antes mesmo da campanha formal começar, o presidente já está em campo.
Esse é o peso da máquina pública. Não necessariamente como abuso, mas como vantagem. E vantagem política importa. Em uma eleição presidencial, visibilidade, agenda e narrativa são ativos fundamentais. Quem está no poder tem mais facilidade para aparecer, para comunicar, para pautar o debate e para transformar atos administrativos em mensagem política.
Lula conhece esse jogo como poucos.
Ao longo de sua trajetória, ele construiu uma das maiores capacidades de comunicação popular da política brasileira. Lula sabe transformar programa de governo em discurso. Sabe dar sentido eleitoral a uma entrega administrativa. Sabe usar símbolos, imagens e palavras para conectar governo, presença do Estado e proteção social.
Por isso, a propaganda institucional em ano eleitoral precisa ser analisada com atenção. Mesmo quando não pede voto, ela pode fortalecer uma percepção: a de que o governo está trabalhando, entregando e presente na vida das pessoas. Essa percepção é poderosa, especialmente para um presidente que pretende pedir mais quatro anos de mandato.
A oposição enfrenta um desafio completamente diferente. Um candidato sem mandato precisa conquistar espaço, montar palanque, articular partidos, disputar atenção nas redes e tentar chegar ao eleitor. Já um presidente em exercício aparece todos os dias como personagem central da vida nacional.
Essa diferença não é pequena.
Há ainda uma assimetria mais evidente quando comparamos a situação do presidente com a de governadores que desejam disputar outro cargo. Um governador que queira ser candidato à Presidência precisa deixar o mandato dentro do prazo de descompatibilização. Ao se afastar, perde a caneta, a agenda oficial e parte da estrutura que lhe dava exposição.
O presidente candidato à reeleição, por outro lado, permanece no cargo. Continua com a caneta na mão.
Essa é a grande vantagem da reeleição: ela mistura, dentro dos limites da lei, a figura do governante com a figura do candidato. Formalmente, são papéis diferentes. Na prática política, a fronteira é muito mais difícil de separar.
É claro que a máquina não ganha eleição sozinha. Se ganhasse, nenhum presidente ou prefeito candidato à reeleição perderia. O eleitor continua avaliando economia, segurança, renda, serviços públicos, comportamento do governo e credibilidade pessoal. A máquina ajuda, mas não resolve tudo.
Ainda assim, ignorar sua força seria ingenuidade.
A disputa de 2026 será travada em torno de narrativas. Lula tentará vender a ideia de continuidade, estabilidade e reconstrução. Seus adversários tentarão mostrar desgaste, excesso de gastos, contradições e uso político da estrutura estatal. O eleitor estará no centro dessa batalha de versões.
Por isso, o debate sobre propaganda institucional não deve ser tratado apenas como uma questão contábil. Não se trata somente de saber quanto foi gasto. A pergunta mais importante é: qual é o efeito político dessa comunicação em um ano de eleição?
Porque, na prática, comunicar governo também é construir imagem. E construir imagem, em ano eleitoral, tem consequência direta na disputa pelo voto.
A democracia brasileira permite a reeleição. A legislação estabelece limites. A Justiça Eleitoral fiscaliza abusos. Mas a sociedade precisa ter clareza de que o candidato à reeleição sempre larga com uma vantagem relevante: ele disputa o voto enquanto ainda governa.
Essa vantagem não aparece na urna, mas pesa antes dela.
Em 2026, Lula chegará à eleição com experiência, popularidade consolidada em parte do eleitorado, domínio da comunicação política e controle da agenda federal. Seus adversários precisarão enfrentar não apenas um candidato, mas um presidente no exercício do cargo.
No fim, a questão é simples: dentro da lei, o governo pode comunicar suas ações. Mas, politicamente, não existe comunicação neutra em ano eleitoral.
A campanha começa antes da campanha. E quem está no poder costuma largar na frente.
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