O acervo do Museu Nacional, localizado na cidade do Rio de Janeiro, passou a contar com uma peça de uso pessoal da ialorixá Mãe Bernadete, que foi líder da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares. A comunidade está situada no município de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, no estado da Bahia. A incorporação da veste busca eternizar a trajetória de resistência da ativista.
A entrega do objeto ocorreu durante a terceira edição do evento Diálogos da Reconstrução, realizado na instituição sediada no bairro de São Cristóvão, na zona norte da capital fluminense. O encontro reuniu lideranças tradicionais para debater memórias, saberes e patrimônios quilombolas.
Ancestralidade e preservação da memória
A peça doada consiste em um vestido branco adornado com detalhes em azul, entregue oficialmente por Jurandy Pacífico dos Santos, filho da ialorixá. Segundo os organizadores do evento, a iniciativa faz parte de um esforço contínuo para reconhecer e salvaguardar as práticas de comunidades tradicionais como patrimônios vivos, ampliando a representatividade dessas histórias em espaços de grande relevância científica e cultural no Brasil.
Durante a cerimônia, Jurandy Pacífico dos Santos destacou que o item carrega um significado que transcende o valor material. Para os familiares e para o povo quilombola, a veste representa a ancestralidade e a continuidade da luta de uma mulher que dedicou décadas de sua vida à defesa dos direitos humanos e dos territórios tradicionais.
O legado de luta e os desdobramentos judiciais
O assassinato de Mãe Bernadete ocorreu em 17 de agosto de 2023, dentro do território quilombola na Bahia, gerando repercussão nacional e forte comoção entre defensores de direitos humanos. As investigações conduzidas pelas autoridades apontaram que a execução esteve relacionada à atuação firme da líder contra a expansão do tráfico de drogas na região.
A ativista já integrava programas de proteção desde o ano de 2017, período em que seu outro filho, conhecido como Binho do Quilombo, também foi assassinado. A Justiça brasileira tem avançado nos julgamentos dos envolvidos no crime, com condenações recentes aplicadas aos réus apontados como participantes da execução.
Diálogo cultural e representatividade institucional
A programação do evento no Rio de Janeiro foi viabilizada por meio de uma articulação que envolveu a Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Projeto Museu Nacional Vive, a Unesco e o Instituto Cultural Vale. A proposta central do encontro foi estabelecer trocas diretas com comunidades tradicionais para assegurar que a reconstrução do museu ocorra de maneira plural e democrática.
Para a comunidade de Pitanga de Palmares, ver a indumentária inserida em um dos espaços de preservação mais importantes do país significa romper barreiras territoriais e projetar a identidade quilombola para visitantes e pesquisadores de todo o mundo. O portal da Agência Brasil traz mais detalhes sobre a solenidade de doação.
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