A nutrição animal ganha um novo patamar de importância no tratamento de enfermidades complexas. Um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP revelou que dietas formuladas especificamente para o trato gastrointestinal são eficazes no controle da enteropatia crônica em gatos, uma condição inflamatória que causa vômitos e diarreia persistentes. O achado desafia crenças anteriores sobre a eficácia desses alimentos, sugerindo que a melhora clínica não está ligada apenas à digestibilidade dos nutrientes.
O papel da nutrição no tratamento felino
A enteropatia crônica é caracterizada por inflamações persistentes no sistema gastrointestinal, com sintomas que se estendem por mais de três semanas. O diagnóstico, segundo a pesquisadora Erika Pereira, autora do estudo, ocorre por exclusão, descartando-se infecções, parasitoses e alterações metabólicas. Na pesquisa, 57% dos gatos avaliados apresentaram redução significativa nos episódios de vômito após a intervenção alimentar, dispensando, em muitos casos, o uso de medicamentos.
Surpreendentemente, os ensaios de digestibilidade — realizados com 12 gatos doentes e quatro saudáveis — não apontaram diferenças na capacidade de absorção de nutrientes entre os grupos. Isso indica que a resposta positiva à dieta vai além da facilidade de digestão, um conceito frequentemente citado na literatura veterinária. A formulação utilizada, rica em fibras solúveis e insolúveis, prebióticos e com alta digestibilidade, parece atuar de forma mais complexa na microbiota e na saúde intestinal.
Impacto metabólico e novas estratégias
Além da melhora sintomática, o acompanhamento dos animais por 60 dias revelou mudanças positivas no perfil nutricional. Os gatos apresentaram níveis elevados de metabólitos relacionados ao processamento da vitamina D, além de uma melhora nos índices de albumina, uma proteína fundamental para o estado nutricional. Fábio Alves Teixeira, docente da FMVZ e orientador do trabalho, destaca que a dieta gastrointestinal otimiza a concentração de vitaminas essenciais, sugerindo uma interação direta entre a inflamação e o metabolismo.
Nem todos os pacientes, contudo, respondem da mesma maneira. Aqueles que não apresentaram melhora com a dieta gastrointestinal inicial foram submetidos a uma segunda fase com alimentos hipoalergênicos, baseados em proteínas hidrolisadas. Essa estratégia, que utiliza proteínas quebradas para evitar reações do sistema imunológico, mostrou-se eficaz para a maioria dos casos resistentes, reforçando a necessidade de uma abordagem personalizada na clínica veterinária.
Alerta aos tutores e cuidados preventivos
A pesquisa traz um alerta importante para os tutores: vômitos recorrentes em gatos, mesmo que pareçam inofensivos ou relacionados à eliminação de bolas de pelo, não devem ser ignorados. A investigação veterinária precoce é essencial para identificar a enteropatia crônica. Como medida preventiva, especialistas recomendam um manejo nutricional de alta qualidade desde os primeiros anos de vida e, sobretudo, cautela extrema com o uso de antibióticos.
O uso indiscriminado de antibacterianos tem sido associado a alterações severas no ambiente intestinal felino, podendo predispor o animal a inflamações crônicas. O estudo, realizado com apoio da FMVZ-USP e colaboração da Unesp, aponta que pesquisas futuras devem ampliar a amostragem para entender por que diferentes perfis de pacientes reagem de formas distintas aos tratamentos. O Fato Paulista continua acompanhando os avanços da medicina veterinária e as inovações que garantem mais qualidade de vida aos pets. Siga conosco para se manter informado sobre ciência, saúde e bem-estar animal.




